A difícil arte de lecionar em tempos de pandemia

Publicado em 15/10/2020 Editoria: Educação
Dentro da atividade de educação física, de acordo com a professora Rosângela

Dentro da atividade de educação física, de acordo com a professora Rosângela

Em comemoração ao Dia do Professor, celebrado amanhã, dia 15 de outubro, o RJ News  preparou uma matéria especial, com três professoras de Macaé. Na reportagem de Daniela Bairros, elas contam os desafios dos novos tempos, o processo das aulas à distância, as angústias e também a importância de serem presentes na vida dos alunos.

O Dia 15 de Outubro é comemorado o Dia do Professor. Este profissional tão importante e essencial para a formação do cidadão. Afinal, são com eles que aprendemos a ler, escrever, interpretar, calcular, além de entender o passado, construir o presente e projetar o futuro. Este ano, alunos e professores também aprenderam a encarar os desafios da educação à distância, alinhados com a tecnologia e o ensino remoto.

Nesta edição, o RJ News traz histórias e depoimentos de professores, que falam sobre os desafios da profissão em tempos de pandemia, momento em que tudo é tão incerto, principalmente com relação ao retorno das aulas.
Para Dayana Andrade, professora do Colégio Aplicação de Macaé, o ensino remoto não foi tão complexo, como pode ter sido para outros professores. Desde antes da pandemia ela já atuava nas redes sociais e em algumas plataformas, uma vez que já se dedicou a alguns cursos online. “Me adaptei rapidamente ao Google Classroom e às aulas do Google Meat, mas não consegui me adaptar em fazer vídeos longos para os alunos, como outros professores conseguiram. Para mim, o maior desafio do ensino remoto é dar aula em casa, onde temos vários outros compromissos. No meu caso, saí direto de uma licença maternidade para o ensino remoto. Então, enquanto estou dando aulas, alguém tem que estar com o meu bebê. Isso é complicado, porque quando ele chora dá vontade de ver o que está acontecendo, mas ao mesmo tempo preciso ficar ligada nas aulas”, enfatizou a professora.

O que antes era uma pilha de exercícios de papel para ser corrigidos rapidamente, agora, a professora Dayana tem que se atentar aos inúmeros arquivos eletrônicos. “Às vezes, o aluno tira foto do caderno e tenho de decifrar para corrigir e até mesmo dar uma nota. Isso é bem complexo. Leva muito mais do tempo do que levávamos antes para corrigir uma atividade. Elaborar os materiais também tem sido um desafiado, pois tem que ser um material que não seja tão pesado, porque o aluno precisa da internet, do mesmo jeito que o professor precisa de um bom computador, um bom celular e uma boa conexão de banda larga. E nem todos têm. Fora o sinal da internet que na Serra, onde tenho alunos, nem sempre pega bem. Isso também é desafiador. Encontrar os alunos pela internet não é algo tão simples assim”, relatou.

Ainda segundo a professora Dayana Andrade, as maiores dificuldades são para preparar aula remota para os alunos do terceiro ano do ensino médio, que estão em fase de preparação para vestibulares, e o nível das aulas é alto. “Precisam estudar e muito. Se preparar e muito. Tenho que cobrar muito, num momento social e psicológico muito difícil. Temos pessoas morrendo, pessoas deprimidas, extremamente frágeis emocionalmente, que foram colocadas em uma situação de isolamento. Estamos em uma crise econômica grave e muitos alunos estão sofrendo com o desemprego dos pais. Tem sido extremamente desafiador preparar aulas no meio disso tudo”, desabafou.

Além das aulas tradicionais que precisa dar remotamente, a professora tem outra importante missão: ajudar os alunos que estão enfrentando sérios problemas emocionais em função da pandemia e do isolamento. “Uso muito provérbios africanos e populares brasileiros para ajudar neste momento de dificuldade. Me coloco junto deles, afinal também estou com medo, insegura, tensa. Têm dias que quero estudar e outros não quero fazer nada.

Também enfrentamos diversos problemas como os alunos. É preciso mostrar que isso tudo está mexendo sim com todo mundo, mas, ao mesmo tempo, mostrar também que não podemos desistir, perder de vista nossos sonhos. Ir em busca dos nossos sonhos, ir atrás deles, também é uma forma de sair deste estágio de tristeza. O papel do professor é muito crucial, como para mim sempre foi. Trabalhar com classes populares, com grupos mais marginalizados, que vieram de bairros periféricos, como eu, é muito complexo. Às vezes, são com os professores que eles desabafam, porque não encontram outros lugares para falarem, por exemplo, da expectativa de futuro”, revelou.

O sonho de ser professora desde criança
A pandemia do novo coronavírus despertou em muitos professores a necessidade de usar a criatividade para dar aulas, principalmente pela internet. A professora da rede pública de Macaé, Regiane Magalhães, ou se preferirem, a Tia Regi, usa as redes sociais para contação de histórias para os pequenos. Através de lives, ela ajuda quem mais precisa.

Regiane quis ser professora desde criança. Gostava de brincar de dar aulinhas para o gato, para as bonecas e para as irmãs. “Com essa paixão, eu cresci, fiz o curso normal, fiz faculdade de Letras e hoje eu estou como professora de educação infantil da rede municipal de Macaé”, contou.

Na escola onde trabalha, a professora Regiane atua como professora integradora na sala do “Faz de Conta”, contando história e proporcionando momentos de interação entre crianças e livros. “Contar histórias para mim é uma arte. É uma grande paixão da minha vida. Eu acredito que, através das histórias, podemos mudar a realidade das crianças, fazer com que elas acreditem e lutem pelos seus sonhos. Eu considero muito importante o papel do professor na sociedade. Tenho muito orgulho de ser professora, porque eu sei do poder que tenho em minhas mãos, em transformar o mundo, em transformar a vida de uma criança”, declarou.

A atuação do professor, na opinião de Regiane, vai muito além de passar lições. “O professor é uma peça fundamental na sociedade. Porque eu me preocupo muito em passar conceitos valiosos para as crianças, como a importância dos valores, do amor ao próximo, de respeito. Eu procuro sempre trazer tudo isso através das contações de histórias e de campanhas sociais. Para mim, o atual cenário trouxe um grande desafio ao professor. Fomos ‘tirados’ da sala de aula, mas a sala de aula não saiu da gente. Continuamos trabalhando, adaptando todas as nossas funções dentro de outro ambiente, outros recursos. Foi e está sendo muito desafiador. Por isso, cada professor tem sim que ser muito valorizado. Nós não paramos, não descansamos, principalmente quem atua com educação infantil”, destacou.

Da vontade de ser veterinária à professora de Educação Física
O sonho na verdade era ser maestrina, mas por conta do pai, que era peão de boiadeiro, Rosângela Oliveira Augusto, hoje professora de educação física, queria cuidar de animais, ser veterinária e chegou até prestar o vestibular, mas as dificuldades financeiras a impediram de seguir a carreira. Como no ensino médio cursou formação de professora, começou a trabalhar em Centros Integrados de Educação Pública (CIEPS). Foi professora e alfabetizadora por dois anos consecutivos. “Quando meu primeiro aluno leu, foi a coisa mais maravilhosa para mim. Porque esse era o objetivo no final do ano letivo, que a criança saísse dali, da sala de aula, lendo e escrevendo. Foi lindo demais”, declarou. A partir daí, entendeu que queria ser professora. Aos 18 anos se formou e conseguiu a primeira turma como bolsista no Ciep. “Atuei como professora e alfabetizadora durante dois anos, mas neste período eu cursava o técnico de enfermagem, porque eu ainda queria cuidar.

Não ia cuidar de bicho, mas de gente. Consegui trabalhar em um hospital para pacientes psiquiátricos, onde atuei por sete dias como técnica de enfermagem, mas como eu já cursava educação física, fui transferida para o setor de recreação deste hospital. E foi a partir daí que me descobri dentro da educação física. Sou apaixonada e defendo com unhas e dentes o profissional. Porque cuidamos da saúde dentro da escola”, frisou.

Para Rosângela, em tempos de pandemia, o principal desafio para ela foi manusear o celular, principalmente para se adequar às redes sociais e manter o contato com os alunos. “Eu nunca fui próxima de celular. Sempre gostei de ligar para as pessoas. Nunca fui ligada às redes sociais. Mas tive que aprender a lidar com isso, praticamente 24 horas por dia, no WhatsApp e em grupos de alunos. Tive até que comprar outro telefone, principalmente para armazenar conteúdos. Precisei aprender, num prazo curto, a lecionar pelas plataformas virtuais, a mexer nos aplicativos para montar as aulas e torna-las atrativas para os alunos, que também sofreram com o isolamento social. Eu tive que praticamente me tornar uma youtuber para atrair a atenção dos deles”, comentou com risos, a professora Rosângela.

Dentro da atividade de educação física, de acordo com a professora Rosângela, outro desafio também foi passar, de forma virtual, os conteúdos para a prática de atividades físicas. “Oitenta por cento dos meus conteúdos são práticos, realizados em quadra. Porque trabalhamos com o desporto, não deixando de ter a parte teórica. As aulas de educação física eram os momentos de recreação, de divertimento, praticar esportes na escola. E agora, tenho que levar a prática do esporte às casas dos alunos pela internet. Confesso que é difícil, mas estendi a parte teórica um pouco, sobre qualidade de vida, como: dormir bem, beber água, fazer um bom alongamento, para os alunos do ensino fundamental, médio e educação infantil. Todos aprendem a importância da prática da atividade física”, informou.

› FONTE: RJ News