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Padre Fábio de Melo: "Já cometi um dos sete pecados capitais"

Publicado em 21/04/2019 Editoria: Entrevista sem comentários Comente! Imprimir


Padre Fabio de Melo

Padre Fabio de Melo

Ter Padre Fábio de Melo numa entrevista em pleno domingo de Páscoa é uma honra e um prazer para esta colunista que vos escreve. Cristão com origem judaica, ele analisa a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o sacrifício de animais em cultos religiosos, fala sobre assédio, vaidade e Deus. O pároco ainda deixa uma linda mensagem de Páscoa para os nossos leitores. Vale a pena conferir.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que é constitucional o sacrifício de animais em cultos religiosos. O que o senhor acha sobre essa decisão ?

A decisão é difícil pois precisa contemplar duas realidades. De um lado, as tradições religiosas que precisam ser respeitadas, e de outro os defensores dos animais. Venho de uma tradição religiosa que também sacrificava animais em seus ritos. Sou um cristão com origem judaica. Jesus era judeu. Mas a partir dele o novo entendimento teológico é que Deus prefere o sacrifício do nosso coração. Fazer morrer nele o ódio, a inveja, a injustiça, a maldade, enfim, todo e qualquer sentimento e pensamento que possam atualizar no mundo as forças do maligno. Mas esse é o entendimento cristão. Há outras religiões que não compreendem assim. E precisam ser respeitadas. Se por acaso houver uma reflexão, levando a entender que matar um animal deixou de ser um simbólico coerente com os nossos dias, a mudança deverá partir delas.

O senhor canta a palavra do Senhor Deus e esta é a sua vocação, mas alguns fãs/fiéis acabam confundindo as coisas. O culto é para Deus e não para o senhor. Como o senhor explica para seus fãs essa diferença?

O limiar é sempre muito estreito. E tenho consciência de que sou eu o primeiro responsável pela forma como os outros me interpretam. A arte sempre foi a linguagem religiosa por excelência. Aliás, este é o filtro que sempre uso para saber se é arte ou não: a expressão que se diz artística que tenho diante de mim, facilita-me transcender, chegar ao Deus que me habita? Se sim, então eu me identifico e procuro ser sempre tocado por ela. Por isso é sempre pessoal, passa pelo gosto, pelo que identificamos como naturalmente redentor. Com o meu trabalho eu sempre procuro oferecer isso às pessoas. Seja através da música ou da literatura. Que elas façam a viagem interior, aquela que nos leva a descobrir quem somos, e o Deus que é em cada um de nós.

Como o senhor vê hoje a Igreja Católica no Brasil?

Uma igreja viva em suas bases, atuante, caridosa. Muitas instituições sérias esparramadas pelo Brasil ajudam a minimizar o sofrimento dos mais pobres. É a dimensão social da fé, mas sem nunca esquecer que ajuda material também precisa ter uma dimensão mística. Caso contrário se limitará a ser uma ação ideológica. Na caridade que a Igreja faz, a vida de Cristo é proclamada. É Ele quem nos move, porque até o amor com que amamos foi Ele quem nos deu.

De que maneira a Igreja deveria usar as redes sociais e a internet para levar a palavra de Deus a mais pessoas?

Não me sinto no direito de dizer. Redes sociais são lugares de encontros. Eu sei como quero encontrar as pessoas. Mas não posso determinar como os outros deverão fazer. Uma coisa é certa. A Igreja que somos nós é a primeira responsável pela disseminação dos valores evangélicos como amor, gratidão, justiça, entendimento, tolerância. Identificamos e somos identificados como cristãos pelos que nos observam à medida em que fizermos isso.

Qual é a importância das redes sociais na sua vida?

É lá que realizo os encontros improváveis. Falo e faço amizade com os que não passariam nem na porta da minha igreja.

Qual o limite da sua vaidade?

É fácil. É não permitir que o que sou por fora fique mais importante do que eu devo ser por dentro.

O assédio de fãs, em algum momento, incomoda o senhor?

A palavra assédio nunca é boa. Soa desequilíbrio, perseguição. Prefiro dizer que recebo muito carinho. E ele só me faz bem. Eu o interpreto como o resultado do trabalho que faço.

O senhor se considera mais artista ou padre?

Sou padre. E por acaso faço um trabalho com arte. Nasci tocado pela sensibilidade artística. Ao decidir ser padre, trouxe tudo o que sou para exercer o meu ministério. Uma realidade não anula a outra. São complementares. Minha arte ajuda o meu ser padre, e o meu ser padre ajuda a minha arte.

Circula um texto na internet atribuído ao senhor, que na sua infância o senhor apanhou muito do seu pai e da sua mãe. Esse texto é verídico? Como foi a sua infância?

Não é verdade. Nunca apanhei do meu pai. Ele era um homem educado, sensível. Tive uma infância muito simples no interior de Minas Gerais. Inventava meus próprios brinquedos, lia muito e comecei a trabalhar já aos 8 anos. Conciliava a escola com a venda de doces pela cidade. Estudava de manhã e logo após o almoço já tinha um balaio cheio de doce de leite e doce de rapadura para vender após o almoço.

Quando o senhor decidiu se tornar padre?

Desde criança eu já falava. Mas minha entrada para o seminário foi aos 16 anos.

O senhor leva muitas cantadas?

Não. As pessoas são muito respeitosas quando estão em minha presença. Quando existe um ou outro comentário mais ousado, ele me chega de forma virtual.

Toda hora tem um meme seu na internet. Como o senhor lida com isso?

Quando o humor não é ofensivo ele nunca me incomoda. O mundo está pesado demais. Despertar um sorriso em alguém é uma dádiva. Assim também aliviamos a alma: sorrindo.

O que ninguém sabe sobre o senhor? Tem alguma mania? Algum TOC?

Não. Já estou medicado (risos).

Padre é santo?

Santidade é um projeto de vida. Consiste em minimizar em nós que os nos faz adeptos das realidades que podem nos destruir. Eu sou um líder religioso. É claro que eu preciso viver com muita radicalidade essa proposta. Eu não sou santo. Eu sou um ser humano que busca atualizar a presença de Deus no mundo. Ser com Ele, para Ele e com Ele. Mas tudo aqui, de forma humana, a meu modo, com meus defeitos e qualidades.

O senhor comete (ou já cometeu) alguns dos sete pecados capitais?

Claro que já cometi um dos sete pecados capitais. Sou humano!

Qual pecado?

Ah! Como estamos falando de pecados, eu prefiro confessá-los a um outro padre.

Como é a sua rotina diária? Que horas acorda, o que faz, quantas vezes reza por dia...

Não tenho rotina. Minha vida me coloca cada dia num lugar. Procuro sempre viver bem onde eu estiver. Rezar é um modo de ser. Estou o tempo todo tentando ouvir o que Deus me fala. Como dizia Adélia Prado, "a rotina perfeita é Deus."

Qual é o seu santo de devoção e por que?

São Antônio. Pela sua bonita história de vida, e também por ter sido um grande orador.

A Páscoa é a data mais importante do calendário Cristão. Qual a sua mensagem para os leitores?

Páscoa é renascimento. É a feliz oportunidade de virar a página de um tempo que já não nos serve mais. É o que desejo. Que a ressurreição de Jesus nos recorde que podemos mudar, alterar o que em nós precisa morrer. No meu livro novo &39;Por onde for o teu passo, que lá esteja o teu coração&39;, há um texto de abertura que diz: "Bem a sós, recobra teus cuidados já esquecidos, coloca ao colo o teu ser franzino, a tenra idade, os prados imaculados da divina infância, e conceda-te a delicada subversão de renascer". Que essa coragem nunca nos falte. A nossa melhor versão está à nossa espera.

› FONTE: O Dia


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