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Orlando Silva: visão do COI é mais avançada que da Fifa

Publicado em 15/08/2015 Editoria: Entrevista sem comentários Comente! Imprimir


Deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) é bastante participativo nas pautas sobre esporte

Deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) é bastante participativo nas pautas sobre esporte

O futebol tem sido um assunto recorrente em Brasília nos últimos meses. No dia 5 de agosto, a presidente Dilma Rousseff sancionou a MP 671, conhecida como a MP do Futebol, que tem como objetivo definir parâmetros para os clubes renegociarem suas dívidas fiscais em troca de contrapartidas. No Senado, Romário (PSB-RJ) preside a CPI do Futebol, idealizada após o escândalo na Fifa para investigar supostas irregularidades em contratos da CBF.

Ministro do Esporte entre 2006 e 2012 e atualmente deputado federal, Orlando Silva (PCdoB-SP) acompanha ativamente as pautas relacionadas ao esporte na Câmara dos Deputados. Em entrevista ao Portal da Band realizada na última segunda-feira por telefone, o parlamentar classificou como positivo o resultado da MP do Futebol e comentou o andamento da CPI instaurada no Senado.

Foi durante seu período como ministro que o Brasil venceu as candidaturas para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada Rio 2016. Na conversa, o deputado analisou os dois eventos e a relação com as duas entidades que os organizam. Para Orlando Silva, o Comitê Olímpico Internacional (COI) se preocupa mais com o legado do que a Fifa. O ex-ministro inclusive afirmou que o secretário-geral da Fifa, Jérôme Vlacke, ficou feliz quando ele deixou o governo.

“Jérôme Valcke chegou a comemorar a minha saída porque foi justamente no momento em que estávamos endurecendo na negociação com a Fifa”, afirmou Orlando Silva, que deixou o cargo em 2012 devido à pressão por conta de supostas irregularidades com cartões corporativos, que não foram comprovadas no ano seguinte.

Confira abaixo a entrevista completa:

Qual sua opinião quanto à sanção da MP do Futebol?

Orlando Silva: "A sanção que a presidenta Dilma fez, com todas as modificações que foram feitas na Câmara e no Senado e com os vetos que a presidenta realizou, teve um resultado muito positivo. A presidenta Dilma enviou uma Medida Provisória que tinha o objetivo de refinanciar a dívida dos clubes. Portanto, fazer com que os clubes cumprissem com suas obrigações tributárias, e, ao mesmo tempo, criar condições favoráveis para o refinanciamento da dívida. Criou uma série de contrapartidas no âmbito da gestão dos clubes e da governança, como o limite de mandatos; limite na reeleição de dirigentes de clubes, federações e da CBF; exigência de auditoria nas contas; limite para gastar com o departamento de futebol; limite para antecipação de receitas. Por um lado o governo ofereceu condições favoráveis para o refinanciamento das dívidas, e por outro exigiu uma série de mudanças na governança do futebol brasileiro que no médio prazo podem permitir ao Brasil ter outro padrão de. Este era o núcleo da Medida Provisória, que foi mantido. Muitos outros temas foram acrescentados, modificados e, do meu ponto de vista, aperfeiçoaram esta medida. Os vetos que a presidenta fez não impactaram em nada relevante do texto".

Houve muita pressão por parte dos clubes, da CBF e da bancada da bola para o abrandamento de certos temas. Há algum com que o senhor não concorde ou que acredite que pudesse ter ficado melhor?

"Eu creio que três mecanismos são importantes. Limitar a reeleição nos clubes. Acabaram nas federações, clubes e na CBF os mandatos eternos – é um medida forte que considero muito importante. Segundo, impor responsabilidade fiscal e impedir, por exemplo, a antecipação de receitas sem fim, que é o que se faz no caso de televisão. Ao mesmo tempo, com um teto máximo para se gastar com o futebol, você impõe um padrão. E mesmo para a gestão temerária, você tem punição para o dirigente que exercê-la. São medidas fortes. Pessoalmente, do que não vingou, que foi até uma emenda parlamentar que eu fiz, era estimular a criação de sociedades empresariais. Considero que o futebol tem uma dimensão cultural, esportiva, mas também tem uma dimensão de negócio, que deveria ser gerido como negócio. Eu considero que é necessário mais profissionalismo. Infelizmente não vingou porque a Fazenda indicou o veto. Mas eu considero que, no conjunto da obra, o resultado foi positivo".

Do que foi aprovado, o que está restrito aos clubes que aderirem ao refinanciamento e o que é universal para todos?

"Essa vai ser uma polêmica nos próximos dias. Por exemplo, na minha leitura, passa a ser universal a todos os clubes que disputam competições oficiais no Brasil. Mas há clubes que falam que não, que é só para aqueles que aderirem ao programa. Eu creio que talvez a regulamentação da lei possa deixar mais explícito ainda, que deve ser uma regra que tem impacto sobre todos os clubes do Brasil, federações e a própria CBF".

Como o senhor enxerga os trabalhos da CPI do Futebol?

"Olha, é mais uma CPI, né? Não será a primeira, provavelmente não será a última, já que o futebol brasileiro é um tema de muito interesse. Eu preferia que fosse uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista, que tivesse representantes da Câmara dos Deputados e do Senado. Inclusive, fui o primeiro a assinar um requerimento de autoria do deputado João Derly (PCdoB-RS), que propôs a CPI mista. Mas infelizmente a CPI ficou só no Senado. O Senado é mais restrito. A CPI mista poderia ter mais parlamentares, mais Estados, tratar de mais temas".

É possível uma parceria entre a CPI e o FBI, que também está investigando a corrupção no futebol?

"É possível. Eu não tenho informações detalhadas, mas ao que parece há um conjunto de iniciativas no âmbito do FBI para investigar o futebol mundial. Eu considero que é possível que nós tenhamos um resultado relevante a partir dessa cooperação porque há rumores de que há delação premiada em alguns casos nos EUA. Isso pode dar indícios úteis para a apuração e eventualmente desvendar temas relevantes para o futebol do Brasil".

Dentro da CPI do Futebol há senadores ligados à CBF, como Romero Jucá (muito unido a José Sarney, cujo filho, Fernando, é vice-presidente da CBF) e Fernando Collor de Mello (pai de Arnon, fundador e presidente da Liga do Nordeste). O senhor acredita que a presença de pessoas com esse tipo de ligação pode prejudicar as investigações?

"Eu creio que o importante é as regras e o plano de trabalho estarem bem definidos. Não dá para a CPI investigar tudo porque você fica sem foco e acaba se perdendo. Eu vou até ver se consigo falar com o senador Romário. Creio que deve haver um foco. Alguns contratos, alguns temas. Aí não importa quem está compondo a comissão porque hoje em dia tudo é acompanhado pela sociedade. A mídia é independente e livre, dá toda cobertura às investigações. Tenho impressão de que o que tiver que ser apurado vai ser apurado. Se é verdade que há senadores identificados e veiculados (com a CBF), também é verdade que há senadores identificados com a crítica e a oposição com essas entidades".

Como senador, o Romário tem feito o combate à corrupção no futebol como uma de suas bandeiras. Como o senhor enxerga o trabalho dele no Senado?

"O Romário para mim foi uma surpresa positiva. É um parlamentar muito dedicado, muito concentrado, faz um trabalho rigoroso, sério. Eu, pessoalmente, tenho uma admiração não só pelo atleta, mas hoje eu diria também pelo homem público e pelo parlamentar. Ele é um sujeito muito cuidadoso, criterioso. Agora, insisto: há que se ter foco. Fixar qual é objetivo para não se perder no meio da caminhada".

Quando ministro do Esporte, por causa da Copa, o senhor lidou bastante com a CBF, então presidida por Ricardo Teixeira, que deixou o cargo após denúncias de corrupção. Seu sucessor, José Maria Marin, está preso na Suíça pelo mesmo motivo. O atual presidente, Marco Polo Del Nero, ao que tudo indica, não deixa o Brasil com medo de ser preso. Durante seu período como ministro, o senhor pôde ver algum indício de que se trata de uma entidade corrupta?

"Não. A CBF e a Fifa, sobretudo, em eventos que participei e acompanhei na Suíça, na Alemanha, na Espanha, na Inglaterra, nos EUA, o que vi foi muita consideração por parte de entidades governamentais, de executivos de multinacionais. O que havia era grande devoção, um respeito, uma consideração. Insisto, não só na África do Sul e na Alemanha em que vi e acompanhei as Copas do Mundo, mas na Europa, o que se via era uma imagem de uma instituição poderosa, influente e moderna. Esse debate que explodiu anos depois não era um tema um tema presente nesses momentos".

O senhor se surpreendeu com o escândalo de corrupção?

"Confesso que sim. Na dimensão que possuiu, confesso que me surpreendeu. As investigações estão em curso e ainda imagino que a dimensão exata só iremos conhecer em algum tempo".

Se forem comprovadas irregularidades na CBF, até que ponto o governo pode agir dentro da entidade? Até porque a Fifa ameaça punir as confederações que sofrerem interferência governamental.

"Considero que o caso da CBF é de federações e clubes. Na Medida que virou lei agora, tem um aspecto que eu acho muito relevante, que foi a ampliação do colégio eleitoral. Agora votam as federações estaduais, os clubes da Série A, que já votavam, e incluímos os clubes da Série B. Eu creio que a CBF deveria ir além da lei e incluir a Série C, a Série D e democratizar o colégio que elege a direção da CBF. Eu considero mais adequado que esses representantes de todos os clubes e de todas as séries, mais as federações, fixem os critérios de governança e de controle. Qualquer eventualidade, qualquer problema que surja, eu imagino que seja resolvido nesse âmbito. Não sou muito favorável de intervenção do governo. Eu considero que o governo tem assuntos mais importantes e mais urgentes para cuidar na vida nacional".

O senhor acredita que CBF pode ampliar esse colégio eleitoral?

"Eu creio que sim. O ambiente está mudando dentro e fora do Brasil. Até para a entidade ter a legitimidade é necessário ampliar o colégio eleitoral. Qual o motivo de um clube da Série C não votar? Eu não vejo motivo. Alguns falam: ‘as federações vão ser minoria’. Mas isso pouco importa. O interesse de clubes grandes muitas vezes é contraditório ao de clubes menores, ou de clubes do Norte, ou do Sul. Quando você coloca todas as séries para votar, você coloca toda a realidade do futebol brasileiro dentro da CBF".

O senhor era ministro quando o Brasil foi definido como sede dos Jogos de 2016. À época, foi prometida a despoluição da Baía de Guanabara. Hoje, especialistas dizem que não é possível alcançar essa meta. Houve algum estudo que mostrasse a viabilidade da despoluição? Ou esse cenário atual é culpa do governo do Rio?

"Primeiro, os Jogos Rio 2016 já deixaram um legado importante para a cidade, sobretudo no campo da mobilidade urbana. Foram muitas intervenções em transportes que efetivamente terão impacto relevante. Há a projeção internacional, a consolidação do Rio como destino internacional. Haverá seguramente um legado esportivo, não só um resultado melhor, o que é natural jogando em casa, mas no conjunto de modalidades vai ter um desenvolvimento da cultura esportiva no Brasil. E há lacunas. Até onde eu sei, o projeto de despoluição da Baía de Guanabara foi, entre os projetos principais, o que menos evoluiu. Na verdade, nunca se imaginou ter a baía 100% despoluída porque isso exigirá um investimento brutal, de bilhões e bilhões de reais, durante um tempo muito largo. O que se buscou é ter uma melhor qualidade da água, que criaria um ambiente melhor para as competições e, sobretudo, criaria um melhor meio ambiente. E aqui, talvez, nós fiquemos devendo como legado dos Jogos Rio 2016".

Pelas informações que o senhor possui, como está o andamento das obras?

"Até onde eu sei, no conjunto, você tem um desenvolvimento satisfatório. Minha impressão é que o previsto como obra para o evento estará pronto. E você terá intervenções no caso de transportes também majoritariamente prontas. Então eu diria que de zero a 10, no quesito infraestrutura, passaria de ano. Talvez a cidade seria merecedora de uma nota oito".

O senhor também era ministro quando o Brasil foi definido como sede da Copa do Mundo. Analisando um ano depois, o que deu certo e o que deixou a desejar?

"O que deixou a desejar foi a seleção, ninguém imaginava um resultado catastrófico daqueles. Agora, do ponto de vista do evento em si, foi bem organizado. Você não teve nenhum incidente durante o evento, a operação logística funcionou plenamente. Talvez as telecomunicações pudessem ter uma qualidade superior. Talvez, que era uma questão desde antes, algumas cidades com menos tradição no futebol – Manaus, Cuiabá e até mesmo Brasília – devessem ter construído arenas menores. Esse foi um debate que fizemos durante aquele período. Mas eu diria que isso não chega a comprometer. Há dados desse Brasileiro que mostram que os jogos disputados nas arenas preparadas para a Copa, ou arenas padrão Copa, como Grêmio e Palmeiras, produzem quase o dobro da média de torcedores do campeonato. Ou seja, torcedores com lugar mais confortável, mais seguro, ficam mais estimulados a participar, até mesmo com o incremento no valor do ingresso. Aliás, eu fiz uma emenda aprovada que produz ingressos populares, porque as arenas novas não podem excluir os trabalhadores. Voltando à Copa, eu diria que o saldo é positivo. Nós temos algumas arenas em praças com menos tradição com o uso abaixo do necessário, mas também isso era previsto. Isso foi decisão dos governadores dos estados que bancaram fazer arenas desse tamanho, que não era o recomendado.

E como funcionará esta emenda que propõe ingressos populares?

"Tem dois temas que serão objeto de desenvolvimento no próximo período. O primeiro é o fomento ao futebol feminino, que é uma das contrapartidas dos clubes que vão aderir ao refinanciamento. O segundo é a garantia de uma cota de ingressos populares, que girariam em torno de R$ 40. Isso será subsidiado com parte dos recursos que os clubes vão receber com a loteria criada por essa mesma medida. O objetivo é garantir em todo jogo que trabalhadores, pessoas com uma renda menor, possam adquirir esses ingressos a preços populares".

Em 2011, o senhor deixou o Ministério do Esporte mediante supostas irregularidades no uso de cartões corporativos. No ano seguinte, a Comissão de Ética Pública da Presidência o inocentou por falta de provas. O senhor se arrepende de ter deixado o cargo?

"Não me arrependo porque é política. Eu fui um dos ministros que ficou mais tempo no governo. Foram quase seis anos como ministro, nove anos no governo federal. Havia projetos de grande relevância, a Copa do Mundo e a Olimpíada, eu era pessoa chave na condução desses dois projetos e virei vitrine. Eu me recordo que na fase crítica, quando eu estava sofrendo acusações, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, chegou a comemorar a minha saída do governo porque foi justamente no momento em que estávamos endurecendo na negociação com a Fifa. É do jogo político, tinha gente interessada no espaço que nós ocupávamos. Você fica machucado porque sabe que não cometeu nenhuma irregularidade. Ser acusado injustamente, sem provas, sabendo que é apenas para exploração e desgaste político, te entristece porque sua família é atacada também. Mas eu sabia que naquele momento eu tinha que me retirar, ali era luta política contra o governo. Eu era um instrumento para desgastar o governo. Saí do governo, procurei reconstruir minha vida política. Tenho orgulho de ter sido acolhido pelo meu partido, pelo Estado onde moro há 23 anos. Disputei a eleição, ganhei e continuo dedicando minha vida ao esporte, ao desenvolvimento nacional e às ideias em que acredito".

A Fifa obteve um lucro recorde de R$ 16 bilhões na Copa, enquanto o Brasil arcou com todos os custos e não alcançou um ingresso de receitas tão grande. Como o senhor vê essa relação?

"Eu não sei qual foi o resultado econômico da Copa no Brasil. Eu não conheci nenhum estudo feito sobre isso. Mas é a regra do jogo. Assim como foi um grande sucesso, poderia ter sido um fracasso. É da regra do sistema de hoje do capitalismo, o lucro é o que vale. Se o sujeito não quer fazer cumprir essas regras, não aceita o evento. Você faz a Copa do Mundo quando você quer fazer a Copa do Mundo. Eu vejo como natural, como uma relação comercial que tem nesse tipo de evento".

Recentemente, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, criticou a postura da Fifa em comparação ao COI, dizendo que a Fifa “só se preocupa com estádios”. Lidando com ambos, o senhor também teve a impressão de que o COI se preocupa mais com o legado?

"Em qualquer conversa com o presidente da Fifa e o presidente do COI você já vê a diferença entre as duas entidades. O COI, de fato, põe no foco não só o esporte, mas também na dimensão social do esporte, na dimensão de valores do esporte e no legado para as cidades e países que realizam os eventos esportivos. Na Fifa esse debate não existe. A conversa da Fifa é o jogo em si. Portanto, de fato, o Comitê Olímpico Internacional e o Comitê Paralímpico Internacional têm visões, a meu juízo, mais avançadas do que a visão que a Fifa tem".

› FONTE: Band


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