Macaé News
Cotação
RSS
Café Noturno - Por Marianna Mariano

Café Noturno Por Marianna Mariano

Café Noturno - Por Marianna Mariano

Fruto eloquente

Publicado em 29/11/2016 sem comentários Comente!

Tudo vale a pena se a alma não é pequena?

Depende. Talvez o mais ousado de uma tribo não teria a audácia de desbravar novas matas se se sentisse em perigo. Possivelmente a donzela mais linda não queira desapontar seus familiares ao dizer não para um grande amor que fosse rival de anos por uma rixa à toa entre sobrenomes. Que me perdoe Fernando Pessoa, mas não é questão de medo, vergonha ou timidez. A verdade é que a vida é complexa demais, e se jogar de cabeça em algum momento é corajoso e desafiador, mas não se pode perder algo conquistado por anos em segundos. Parece que não, mas correntes de aço podem ser cortadas por uma pluma de fogo ardente que parece apenas acalentar um corpo frio, embora possa, mesmo com a melhor das intenções, acarretar grandes consequências a partir de um feito. 

O que gostaria de saber é até onde podemos ir com nossa bravura antes que o juízo nos reprima e até quando podemos viver uma fantasia inédita antes que os calos dos pés que dançam sobre o chão comecem a doer. Por quanto tempo podemos desbravar grutas sem saber que ir adiante é proporcional ao buraco cavado dentro de nós? Feridas não se curam com band-aids de morango. Mas até quando um pecado ou erro irá se disfarçar de doce para nós, crianças grandes e bobas que querem realizar sonhos e desejos a fim de encontrar a felicidade. Felicidade é seguir a linha e não se arrepender? Pois, para mim, fico mais feliz quando cometo erros e sei que estou errando, porque o momento é tão divertido e fugaz, embora saiba da amargura das consequências do dia seguinte. 

Deve ser por isso que a maioria das festas é à noite.  A escuridão é pincelada por luzes coloridas, na qual a mensagem possa ser que mesmo no negro há algo bom, há luz, há vida. É tão bom dançar ao som da batida, levantar o copo para o ar e brindar à felicidade, aos bons lucros e realizações que têm acontecido ou que vão acontecer. O álcool, mesmo sendo uma droga pesada e viciante, encontra nos copos um lugar para se tornar refúgio e apaziguador de mágoas, de corações partidos, de pessoas que se acham vazias e querem se encontrar. Ou que saibam o seu lugar e mesmo assim querem viver, brincar, brindar. A mesma droga que amansa, fere. A mesma droga que separa, junta - amigos, colegas, namorados ou relacionamentos sem classificação. Seja qual for, uma noite de lazer pode se tornar uma manhã de tortura. Um momento no escuro disfarçado pode mudar o trajeto previamente estipulado.

Não estou querendo criticar as noites, boates, muito menos o álcool. Mas, me entregando à escrita nessa noite solitária e de tormento, a inquietude dentro me fizeram com que meus dedos me guiassem. É minha alma quem digita com o suporte técnico das mãos. Falava de medo e audácia, pulei para a diversão. Eles são sinônimos, sim. Podemos dizer que na diversão encontramos a audácia e contemplação em seus auges, nos quais qualquer medo ou desventura é mascarado por minutos ou horas de risos largos, copos cheios e olhos brilhando. Porém, se não soubermos o equilíbrio entre o chão e a terra, o fantasioso e o real, podemos pôr em risco todas as sementes que foram plantadas e muitos frutos que foram colhidos.

O paraíso é aqui.  As serpentes trocam de pele e mudam de sexo, cor e forma por vários lugares por onde passamos e vamos passar. Somos nós os "Adão e Eva" da nossa era, condenados a viver nesse jardim extenso e complexo. Sabemos dos nossos pecados, pois as ervas daninhas colhidas e regadas conforme amadurecemos não nos permite escondê-los para nós mesmos. Temos milhares de árvores para escolher e muitos frutos para comer, mas sempre desejamos aquilo que não podemos, que não está ao nosso alcance ou não é permitido. O fruto proibido é sempre o mais gostoso e só podemos comprovar tal premissa depois de vencer o medo e sentir seu suco por entre a garganta seca de aventuras eloquentes. Se for veneno, as consequências virão. Se gostoso, mas socialmente coibido, que façamos o que bem desejar ou o que melhor nos convém. Não somos bobos nem garotos. Só crianças gigantes com sonhos perigosos que querem brincar nesse jardim de rosas e espinhos. 

Tudo vale a pena se a alma não é pequena, sim. E se é grande, que seja capaz de ser assim quando os efeitos de nossas drogas em forma de pecados sedutores passarem.

Que os céus nos esperem, mas o paraíso é aqui. Paraíso dos pecados, das injúrias, das felicidades travestidas. E que me ajude Roberto Carlos com a resposta da questão: será que tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda? 

Café Noturno

Por Marianna Mariano

Agenda

+ eventos

sem comentários

Deixe o seu comentário
Digite as palavras abaixo: