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Café Noturno - Por Marianna Mariano

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Indagações de uma menina mulher

Publicado em 03/11/2016 1 comentário Comente!

Queria me confessar.

Sei que não somos amigos de longa data, mas me sinto tão íntima que gostaria de me abrir. Posso estar errada em confiar meus segredos a você, porém não sinto isso. Quero tua ajuda. Quero teu perdão.

Estou me envolvendo com coisas as quais não estou acostumada. São situações, pessoas, lugares. As novidades, ao mesmo tempo em que incitam, indaga-nos a pensar sobre nós mesmos, nossos caminhos, nossa essência.

Fui invadida por um desejo de desbravar o desconhecido, não me prendendo ao pensamento pessimista sobre atos e consequências. Estou apenas querendo viver, saber como é. Estou cansada de ficar arrependida das coisas que faço, ainda mais por aquilo que não fiz. Não estou dizendo que a questão principal é o arrependimento, mas que me sinto diferente, mudada.

Creio que os novos ares me deram outras percepções, despertaram visões e me deram mais malícia. Mas não é isso que é viver: experienciar o intrigante, o casual, o antigo, o normal, o impensável, o perigo, e extrair de tudo isso aprendizados para continuarmos seguindo a jornada?!

Sei que estou mudando. Não sei se isso significa crescer ou amadurecer. Tenho medo de perder minha essência, de estar fazendo errado. Aliás, fiz muitas coisas sabendo que era não o certo ou, no mínimo, comum, mas tive que ir e viver pra contar essa história depois, ou ficar apenas para mim. Se chorei, me agonizei ou me arrependi, pelo menos enfrentei e vivi. Mas será que tanto aprendizado em pouco tempo está me delineando em outra pessoa? Ou será que estou me permitindo mais porque já estou mais mulher que menina, pela qual aquela quer dar o ar da graça nas novas situações que têm aparecido frequentemente em minha vida?

Não sei se isso é a chamada transição criança-adulto. Só sei que a minha menina já não é tão mais aparente e tenho medo da mulher que quer sair ocupar todo o lugar e escondê-la ao ponto de não encontrá-la mais quando eu quiser. Sei que meus valores estão com ela, o meu passado, a minha história, enquanto a mulher que está por vir é quem vai comandar o futuro que chega depressa. No entanto, nessa avalanche de emoções e novidades, minha pergunta é se vou perder o que ganhei até agora ou não me reconhecer mais no espelho.

Já não sei se o que eu faço é por realizar fantasias e desejos de uma menina sonhadora e repreendida ou é pelo fato de estar crescendo, ao passo que o que antes era desconhecido ou perigoso para a garota agora é a mulher quem quer desbravar. E tenho medo dessa mulher virar vulgar e a pequena sumir. Sei que tenho raízes e que ainda me resta o brilho no olhar. Mas será que o mundo é tão mundo que corrompe até quem não esperava ser corrompida? E se o verbo não é corromper, mas crescer, à medida que possa ser possível me permitir errar só para ver como é e depois voltar a ser quem eu era? Se for bom, ótimo, acrescentou. Senão, por arrependimento ou decepção, há sempre chances de voltar atrás. Sabemos que não dá para mudar o que foi feito, mas podemos começar um novo caminho a partir deste exato presente.

Se mudar é me perder, estou com medo. Se crescer é ter novas vontades que não estão batendo com as antigas, estou confusa. Se amadurecer é ter cara e coragem para vivenciar vazios incompletos a fim de ver se há cores que me chamem a atenção, estou corajosa. Mas se enfrento e não gosto, já não me reconheço ou me encontro num outro lugar. Será que sou uma nova pessoa ou é apenas a nova mulher inibindo a não tão inocente menina, cuja voz fica cada vez mais fraca?

Medo, dúvidas e indagações se cruzam com meus desejos e ambições. O mundo me provoca e minha audácia diz sim, mas o juízo ou as lições do passado falam não. Seria a menina o juiz e a mulher condenação?

Em meio a tantos questionamentos eu não paro de crescer. E o mundo não para de rodar, à proporção que as oportunidades continuam aparecendo e eu estou querendo vivê-las. Só queria uma ajuda para encontrar a solução de uma reconciliação entre as duas partes ou saber por qual lado me guiar. Será que posso ser uma mulher menina sem perder a menina mulher?

Ajude-me se quiser. Se a resposta for sim, esteja comigo quando eu precisar. Porque se eu me perder quero poder encontrar aqueles que me guiarão a achar o meu eu de volta, a me puxar quando a gravidade não estiver fazendo efeito, a me perdoar mesmo se não pedir desculpas, mas que neste momento já estão sendo proferidas caso isso aconteça no futuro: 

Me perdoe. Busque-me quando não me reconhecer, pois é nesse momento que mais precisarei de você. E se eu não responder, diga quem eu era quando me conheceu. Saberei o caminho de volta assim: pelo o que viveram e viram de mim enquanto eu estava plena e certa sobre quem eu era, seja a menina moleca ou a mulher em desenvolvimento. Olhe em meus olhos e me fale o que você via e o que você não vê. Sabes que o que mais me toca é falar sobre o meu olhar, e são poucos os que têm o poder de enxergar além do que existe por trás desses meus castanho-escuros. Você é um deles. Você é especial. Obrigada por estar comigo hoje. Obrigada por ser meu amigo agora. Mas seja meu amigo lá, quando eu precisar, pois são nessas horas que a compaixão e a solidariedade da amizade se fazem presentes. E se eu fui egoísta em só falar de mim, pode ter certeza que faria o mesmo por você.

Obrigada por me ouvir. 
Consegui desabafar.

 

 

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