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Panorama - Por Regina Oliveira

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Judite e Mário

Publicado em 03/02/2015 sem comentários Comente!

Ninguém em Mem Martins diz: "Estava-se mesmo a ver". Nenhum sinal de alarme disparou. Ela tinha Alzheimer. Ele sofria do coração. Mário nunca quis deixar Judite sozinha. Vivia em pânico com essa possibilidade. Não tinham filhos, não tinham família próxima, eram reservados.  Mário matou a mulher e acabou com a sua vida. Deixou para trás uma série de perguntas, sem resposta.


Eles andavam sempre de mão dada. Ele sempre atencioso com ela. Só comia a metade do queque que encomendava religiosamente no café do bairro, depois de ir a casa dar-lhe a metade dela. Nunca se lhe viu um gesto que não fosse meigo para com Judite. E, ainda assim, aquele desfecho para duas vidas que viviam uma para a outra faz com que a pergunta ecoe duas semanas depois: porquê? 
A autópsia revelou que Mário, de 77 anos, asfixiou Judite, de 84 anos, em casa. Subiu a uma cadeira, meteu uma corda ao pescoço e pôs um ponto final à sua vida.
É como uma equação em que o resultado final parece nunca bater certo com a soma das parcelas que se conhecem. E refaz-se vezes sem conta à procura do erro. "Mesmo que a autópsia diga isso, eu não acredito", resume uma das vizinhas do casal. 
Há mais de dez anos que o casal vivia numa vivenda amarela muito bem tratada num bairro tipicamente suburbano, que Mário ano após ano melhorava. Ele herdara a casa da mãe e depois de uma vida como ourives, decidiu abandonar o Alto do Pina, em Lisboa, para passar os anos de reforma na pacata praça de Mem Martins, em Sintra. Sem filhos, nem familiares próximos, apenas alguns primos afastados, encontrou ali o conforto para se dedicar a Judite. 
É descrito como pacato e reservado. Não dava muita confiança, gostava do "seu cantinho". A intimidade era um universo quase só seu. Mas ninguém lhe aponta uma crítica. "Era de &39;bom dia&39;, &39;boa tarde&39;. Mas não muito mais", relata outra vizinha. "E sabe como é, nós também não nos metemos mais na vida das pessoas."
De Judite, que durante anos vendeu peixe no mercado, ainda menos se conhecia. Todos sabiam que era doente, era visível que tinha dificuldade em mover-se. Pouco mais. Para muitos, foi uma surpresa descobrir que era o Alzheimer que lhe ia minando o discernimento. 
Um confidente ao lado da passadeira
Mário fora jogador de râguebi na mocidade e a cultura do exercício físico nunca mais desapareceu. Seco, magro e de boa estampa, ninguém lhe dava os quase 80 anos que já contava. O desporto juntou-o a Albertino Pires, o treinador do ginásio, a 100 metros de casa em que todos os dias a passadeira e a bicicleta o faziam suar durante hora e meia. 
O "Tino", como é conhecido por todos, é também um dos poucos com quem foi além da conversa de circunstância. Ajuda-nos a entrar no mundo de Mário, mas deixa um aviso à partida para que não sejamos precipitados nas conclusões. "É chocante. Não se consegue compreender, nem entender", diz.
O ourives na reforma soube conquistar os companheiros de ginásio. Tino diz que não era muito de falar sobre a relação com a mulher. Ainda assim de tempos-a-tempos abria um pouco o jogo. "Dizia que estava preocupado com a situação de saúde da mulher. Notava-se que tinha um grande carinho pela mulher. Que gostava muito dela. Era a família dele", reforça.

Outro amigo do ginásio, Manuel Gomes, lembra Mário como um "brincalhão". Nada no comportamento do companheiro fugia ao chavão do rótulo "normal". "Era um bem-disposto."

Há três semanas que as corridinhas e "levantamentos de uns ferrinhos" estavam em "standby". A ausência até gerou apreensão, mas todos pensaram que seria a saúde da mulher a motivá-la.
A última vez que Manuel viu Mário foi numa rua perto do ginásio. Achou-o estranho na altura e até comentou com Tino. "Nem olhou para mim sequer. Baixou a cabeça e não me cumprimentou, mas pensei estava com os problemas dele e não me meti", relembra. 
Tino recorda que quando o apanhava sozinho, Mário não evitava o desabafo. Lembra-se de lhe ouvir vezes sem conta a preocupação que o corroía. "E se me dá alguma coisa e ela fica desamparada?", dizia-lhe Mário. "Era um dos maiores pavores que tinha".
O medo de que o coração o atraiçoasse
A responsável pelo acompanhamento do casal no centro de dia de Algueirão-Mem Martins, Luísa Martins, valida as palavras do treinador. "Percebeu-se no atendimento que fiz, e depois na visita domiciliária, que eles eram unidos e que ele tinha uma grande preocupação com ela", atesta.

Aliás, foi esse bem-querer a Judite que levou Mário a procurar a ajuda do centro de dia em Novembro do ano passado. Tinha uma insuficiência cardíaca diagnosticada e um cateterismo (exame ao coração) marcado antes de ter de fazer uma intervenção cirúrgica. Estava programada para este mês. Não foi fazer o exame porque Judite apanhou uma grande constipação. Tratou dela dia e noite.

A hipótese de deixar a companheira sem protecção adensou-se. Confessou-o a Luísa. "Numa conversa que tive com ele, disse-me que estava muito preocupado com a operação dele, porque dado o quadro de demência, e do tipo de Alzheimer, ela já estava muito desorientada no tempo e no espaço. Já não a deixava sozinha", recorda.

"Ele tinha medo que lhe acontecesse alguma coisa e do que seria da dona Judite. Eles não tinham filhos, nem falaram de nenhuma rede familiar de rectaguarda", explica a assistente social.

Tino tentava desviar a mente do amigo para que ele não se embrenhasse no drama da mulher. Faziam convívios com um grupo de amigos, com umas tainadas no restaurante Estrela do Minho em que o prato principal eram os coelhos que Mário caçava com um amigo nas tapadas do Alentejo.

Mas era também nos passeios religiosos, nas caminhadas até Fátima, que Tino recorda o amigo como um "excelente conversador". "Tinha uma fé muito forte", relembra.

Uma característica que o leva a uma pergunta que só o deixa mais confuso: "Não percebo como é que ele, tendo a fé que tinha, fez as coisas como fez".

"Próximos fisicamente, longe espiritualmente"
Mário e Judite eram presenças habituais na missa de domingo. Ela menos, por causa da doença. Ele até durante a semana, na capela que fica a dois passos de casa, não perdia a celebração da missa.

O padre Morais Braz, da paróquia de Algueirão/Mem Martins, tem a imagem de um casal "fechado, centrado em si mesmo". "Não tinha ligação com eles, é uma assembleia numerosa e para pessoalizar relações não é fácil".

O pároco foi também responsável pela celebração do funeral. Uma cerimónia "com pouca gente" onde o padre Morais Braz apelou à "vigilância em relação à vizinhança de bairro ou do prédio". "Para que assim possamos evitar a que se chegue ao ponto a que chegou", acrescenta.

O desfecho fatal abalou a comunidade. Era um casal religioso sempre pronto para participar nas excursões até Fátima. Instalou-se um clima de desencanto e tristeza. "Mas temos de saber dar sempre a volta por cima, superar os sinais de desespero e cultivar a esperança para superar as nossas dificuldades", alerta o padre Braz, que lamenta ainda a cultura suburbana em que "estamos próximos fisicamente, mas longe espiritualmente".
No Miminho do Rossio, o café que Mário mais frequentava, Jorge e Sandra sentam-se na mesa que o ourives costumava ocupar. "Era uma pessoa super-simpática", diz ele. "Levantava sempre as mãos na minha direcção e dizia: &39;Menina Sandra&39;", lembra ela.

Mário parava ali quase todos os dias. Na memória fica a meia-de-leite, a torrada, ou o bolinho que sempre pedia. E o lastro de educação e de amizade que deixou. Uma imagem abalada pelos factos descobertos, mas não desmontada. Não conseguem esquecer tudo de bom que Mário fazia. "Ele até ajudava aqui um rapaz, a quem dava dinheiro sempre que precisava", lembram.

A luta interior continua nas palavras que saem boca fora. "A mim custa-me a acreditar. Não acredito. Se há provas tudo muito bem, mas para a pessoa que conhecíamos é muito complicado de digerir", frisa Sandra.

O marido segue-a. "É difícil de acreditar", diz. Jorge tenta atenuar a realidade que lhe custa a aceitar. "Muito pouca gente acredita... Para o fazer… só se lhe deu um &39;click&39; com o qual fazemos coisas que cinco minutos depois já não fazíamos".

Poderia Judite ser vítima já há algum tempo de Mário? "Isso era a última coisa que nos passaria pela cabeça. Jamais", afasta Tino de pronto.

"Nunca os vi com cara de chateados como às vezes vemos [outros casais]. A sensação que passavam para fora é de serem um casal muito amigo e de viverem um para o outro", reforça a dona da mercearia onde faziam as compras para o dia-a-dia, Dolores Sousa.

De facto, as autoridades policiais nunca foram chamadas ao local antes do fatídico 19 de Janeiro. E mesmo ao depararem-se com os dois idosos mortos, o primeiro julgamento não os levou a pensar em homicídio. Por isso, a PJ não foi chamada ao local. A primeira impressão foi a de que "Romeu" vendo "Julieta" morta não teria conseguido suportar a dor da ausência

Só mais tarde a autópsia revelou o crime e toda uma outra história.

"É bom marido". "Até ver"
As técnicas do centro de dia, responsáveis pelas refeições do casal no último mês, foram das últimas a ver o casal com vida. Tudo normal nessa sexta-feira. Nada que fizesse acender o sinal vermelho da preocupação. Apenas &39;a posteriori&39;, o desfecho trágico fez com que um trecho da conversa ganhasse um cariz premonitório.

Judite vira-se para as técnicas e diz: "Sim, sim, mas eu tenho um bom marido".

Mário retorquiu: "Até ver".

No final da visita, o septuagenário dirige-se às duas mulheres para um pedido um pouco estranho. "Nunca se esqueçam das chaves da casa". Em nenhuma outra vez o tinha dito.

O fim-de-semana passou sem que ninguém lhes tivesse colocado a vista em cima. A preocupação dos vizinhos aumentou. Na segunda-feira seguinte, perante a persistência da ausência de sinais, a polícia é chamada ao local. Na vivenda, o casal não está. Os agentes e os bombeiros locais avançam para um anexo. Uma frincha da janela aberta é um indício que desperta a atenção.

Aberta a porta, deparam com o corpo de Judite deitada no sofá com uma flor sobre a manta que a tapava. Alguns passos à frente, Mário está pendurado numa corda já sem vida. Porquê? 

João Carlos Malta

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