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Panorama - Por Regina Oliveira

Panorama Por Regina Oliveira

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A validade dos Dialetos

Publicado em 09/10/2014 sem comentários Comente!



Reparem, por favor, que o problema não é a ortografia truncada ou resumida. Eu sou um dos poucos que defendem as menininhas ki falaum axxim. O que elas criaram é, de fato, um novo dialeto. Um dialeto ridículo, é verdade, que não leio e não entendo, mas um dialeto válido e funcional.
Não é questão de pensar se esses novos dialetos são certos ou errados, nocivos ou inovadores. A função de uma língua é comunicação. Por definição, se esses dialetos estão em uso e, principalmente, se são inteligíveis por uma grande parcela da população, é porque estão respondendo a algum tipo de necessidade por parte dos falantes.
Sempre defenderei o direito dos falantes de modificarem a língua de acordo com suas vontades e necessidades. O falante, assim como o freguês, sempre tem razão.
A Importância da Pontuação
Ora, o problema desse email que eu recebi é que ele não comunica nada. Podemos somente tentar adivinhar, aqui e ali, o que ele quis dizer. Em situações assim, percebemos a real importância da pontuação, algo que sempre ressalto aqui.
Quando alguém erra na ortografia, na sintaxe, na concordância, a pessoa está somente demonstrando sua ignorância em relação à norma culta da língua, mas isso em geral não afeta a comunicação. Todo mundo entende o que ela quer dizer. Raro é o erro de ortografia ou concordância que altera significativamente o sentido da mensagem.
Já pontuação, se usada no lugar errado, muda tudo.
Quem Não Pensa Bem, Não Escreve Bem
Infelizmente, o buraco é ainda mais embaixo. A pontuação torta piora as coisas, mas o problema mesmo é um raciocínio aparentemente confuso. Quem não pensa bem, não escreve bem. Quem não sabe o que quer dizer, acaba não falando nada.
Em suma, fico feliz. Ainda não é hoje que vão me aposentar. Minhas poucas habilidades ainda são necessárias.
A Gramática Não Foi Feita para Humilhar Ninguém
Um dos golpes mais baixos (e mais idiotas) que alguém pode fazer durante uma discussão é criticar a gramática, ortografia ou sintaxe do outro.
É baixo sobretudo por ser inútil.
Pra começar, ou sua platéia viu o erro ou não viu. Se viram, já sabiam que o outro cara errou, já sabiam que ele não domina as regras básicas da língua e isso já ficou registrado - a seu favor. Mencionar ou zombar do erro não vai fazê-los ficar mais ao seu lado do que já estão, mas pode fazê-los pensar que você é um idiota arrogante. Eu sou assim.
Pior ainda, se a sua platéia não viu o erro, então há boas chances de eles serem tão ignorantes quanto a pessoa que você está corrigindo. Ao lhe ver corrigindo o outro, eles vão se colocar no lugar dele e se imaginar também sendo humilhados por você. Gol contra.
Mais importante, a não ser que a discussão seja sobre gramática, sintaxe ou ortografia (às vezes, nem mesmo nesses casos), tais erros não fazem diferença prática alguma. Seja num debate sobre política, engenharia química ou klingons em Star Trek, alguém que diz "nós vai" tem tanta possibilidade de estar certo, ou de ter uma boa idéia, ou de ter toda a razão do mundo, quanto qualquer outro.
Tanto sua platéia quanto seu interlocutor vão perceber que você, de forma pedante e arrogante, está apenas querendo desviar a discussão do seu verdadeiro assunto para um outro campo não relacionado, irrelevante para a assunto, mas que você domina.
Você não prova nada e ainda aliena os espectadores. Sempre uma má estratégia.
Na verdade, não dominar as sutilezas da língua não faz de ninguém burro. Talvez somente num aspecto.
A gramática, a sintaxe e a ortografia (e também a crase) não foram feitas para humilhar ninguém. Elas não são perversas nem aleatórias. A existência de normas padronizadas e universalmente aceitas tem como único objetivo facilitar a comunicação entre o maior número possível de falantes.
Enquanto cumprem esse objetivo, são úteis e saudáveis. Quando já não comunicam, tornam-se obsoletas.
E mesmo quando a língua torna-se um dialeto, como a das meninas ki falaum axxim, o novo dialeto também obedece à regras próprias e intrínsecas, para que possa ser mutuamente inteligível pelos falantes.
Então, não dominar essas regras não faz uma pessoa ser burra. Ou melhor, faz, mas só se você considerar que é uma burrice não se preocupar em aprender as regras que regem (e sobretudo facilitam) a comunicação entre seus pares

DA

 

 

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