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Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

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Castelo de Cartas

Publicado em 20/10/2019 sem comentários Comente!

Foto dos escombros do edifício que desabou em Fortaleza essa semana

Foto dos escombros do edifício que desabou em Fortaleza essa semana

Mais uma vez a história se repete – em outra tragédia anunciada um prédio de sete andares desabou e levou consigo a vida de 9 pessoas que nenhum bem material poderá resgatar. Será que não aprendemos com esses desastres? Aquela velha máxima de que são problemas que atingem apenas os vizinhos.

O prédio de Recife é um dos poucos exemplos de construções que ruem e muitas vezes nem ficamos sabendo.

No registro da prefeitura de Recife, em 1982 foi aprovada a construção de apenas um pavimento, e desde então e até colapsar a construção chegou a sete pavimentos – talvez nunca tivesse nenhuma intervenção ou nunca saberíamos disso se o prédio não tivesse desabado.

Neste ano também conhecemos os diversos edifícios construídos na Muzema, comunidade na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro por causa também da queda de um edifício de 5 andares. Edifícios feitos à margem da legislação, tanto pelos aspectos construtivos, tanto pelos “empreendedores”, ligados à milícia carioca.

Também no Rio, no ano de 2012 um edifício de 18 andares desabou na Cinelândia, vizinho ao teatro municipal – só não provocou tragédia maior por que já passara do horário comercial e a grande multidão que circula pelo local diariamente já havia deixado o lugar, mas 18 vidas foram ceifadas.

Mas esses desabamentos não se restringem apenas a edifícios de apartamentos. Há quase um ano (28/10/2018) o Sr. José Cristino da Silva de 63 anos morreu soterrado pela laje da casa que estava reformando no bairro do Imburo, Macaé; segundo foi reportado, a laje tinha um amontoado de tijolos.

Em Porto Alegre – RS, uma casa em construção desabou e causou a morte de uma mulher de 30 anos. No local estava sendo construído outro pavimento nos fundos de uma residência e ao lado uma garagem com dois andares – o segundo andar da garagem foi feito um depósito de areia.

Vou fazer uma inconfidência, mas não tem o intuito de diminuir ninguém, tampouco vou citar local e nomes, mas preciso compartilhar algo para que se ponha a mão na consciência e erros não se repitam.

Há algum tempo fui chamado por uma pessoa para ver uma notificação que a prefeitura havia dado de uma obra que ela estava fazendo. A prefeitura notificou a pessoa a apresentar em dez dias um projeto arquitetônico e o responsável técnico de uma obra que estava em andamento. Primeiro erro – começar uma obra sem projeto, não vou entrar nos pormenores, mas as consequências de uma obra sem projeto passam por questões econômicas, técnicas e podem acabar em tragédias.

Conversando com o cliente ele explicou que resolveu construir dois ou três pavimentos para alugar quitinetes e também disponibilizar espaço para comércio, pois bem; o cliente reportou (e também era nítido) que ele já teve problemas com o “muro de arrimo” – o mesmo já havia desmoronado e foi refeito. Acontece que o muro fica ao lado de um montante de terra mais elevado – terreno vizinho e principalmente quando chove a terra fica encharcada e faz pressão contra o muro.

Na ocasião com o muro já refeito o cliente ergueu o nível seguinte. Pergunto: E a escada? A resposta foi que ele e o pedreiro pensaram em lançar a escada pelo lado de fora da construção a partir da calçada para não “atrapalhar” o estacionamento. Não fazendo desfeitas aos pedreiros ou outros profissionais da construção civil – aprendi e continuo aprendendo muito com cada um deles, e, certamente na hora de por mãos-a-obra eles podem fazer algo que não é minha praia, todavia, quanto ao aspecto de planejamento – por favor – não atropelem as coisas.

Então, nessas poucas linhas já colocamos aqui algumas coisas que não foram levadas em consideração e que são primordiais – primeiro, como já abordado está a não contratação de um profissional – arquiteto ou engenheiro antes de iniciar qualquer obra; o que teria evitado os demais erros. Ao construir no terreno sem projeto não foi pensado na escada e a ideia, segundo o cliente, era fazê-la a partir da calçada; só daí já colocamos como erros as questões de afastamentos (além de não respeitar os devidos afastamentos a obra estaria extrapolando o próprio terreno pela proposta do cliente e do pedreiro ao construir a escada a partir da calçada), outro erro aí é a taxa de ocupação – quando construiu poderia estar ultrapassando o limite previsto para o terreno. Ainda havia a questão do estacionamento e o espaço para manobras e a escada cogitada, a questão de querer construir outros andares e a área que era possível construir, além da questão comercial, de exigências do código do Corpo de Bombeiros e outras coisas que já estavam sendo negligenciadas.

Não obstante, o cliente informou que construiu em um trecho de terreno que não era seu e na sequencia também fiquei sabendo que a construção que já existia no terreno também havia passado por alterações que não tinham sido aprovadas. Tantas os erros e exigências que o projeto está “emperrado”.

Creio que o principal motivo pelo qual as pessoas não contratam um engenheiro ou um arquiteto para obras e reformas se deva ao desconhecimento por muitas vezes pensar que irão gastar muito; mas não percebem muitas vezes que os erros de construção encarem muito mais a obra – e que gasto maior que a perca de vidas?

O que essas obras tem em comum? O fato de não contar com o apoio de um profissional para o planejamento, para a manutenção. Ainda que o prédio de Fortaleza tenha a chancela de um engenheiro, que emitiu uma ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) um dia antes do desabamento, vale essa ressalva – o profissional foi chamado para “apagar o incêndio”.

Um levantamento feito pelo Datafolha, encomendada pelo CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo), no ano de 2015 mostra que 15 % de pessoas apenas que construíam contratavam arquitetos ou engenheiros. O país tem um déficit habitacional de mais de 7 milhões de habitações, isso sem levar em consideração as casas que tem problemas em sua construção, daí o déficit triplica.

Encerro essa matéria, deixando meu abraço consternado aos familiares e amigos dos bombeiros militares que morreram no cumprimento do suas funções no Centro do Rio na última sexta-feira.  

 

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Por Luis Paulo Guimarães

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