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Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

Dimensão Arquitetura Por Luis Paulo Guimarães

Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

Museu Nacional - luto por um Brasil sem memória

Publicado em 09/09/2018 sem comentários Comente!

Vista da fachada do Museu Nacional - Editora O Globo

Vista da fachada do Museu Nacional - Editora O Globo

Olá meus amigos e amigas da coluna! Obrigado por sua presença aqui. Inicialmente eu queria tocar em um ponto mais ameno. Iria compartilhar com vocês algumas ideias sobre o uso de pallets e outras madeiras que muitas vezes viram descarte, porém, não podemos omitir e deixar de discutir situações importantes.

Domingo retrasado (02/09) ao ver a notícia sobre o museu meu coração se encheu de tristeza e indignação; assim como os demais brasileiros e o restante do mundo.

Há 196 anos, a 2 de setembro 1822, a D.Maria Leopoldina, então na figura de princesa Regente do Brasil assina no Palácio de São Cristóvão o decreto que viria a guiar os passos de um Brasil independente.

Tantas coisas aconteceram, tantas histórias naquele lugar. O local abrigou a família real portuguesa de 1808 a 1821 e de 1822 a 1889 abrigou a família imperial brasileira. Antes de se tornar museu em 1892 também foi sede da primeira assembleia constituinte republicana.

O museu, localizado no Parque da Quinta da Boa Vista foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como patrimônio em 1938 – um ano após a institucionalização do IPHAN.

A família imperial se instalou na residência do português Elias Antônio Lopes, que se gabava de ter a melhor casa do Rio de Janeiro. Erguida em 1803 a chácara do Elias e com uma bela vista para baía de Guanabara ganhou o nome de Quinta da Boa Vista. O termo português para Quinta remete a propriedade rural.

Com a independência do Brasil, D. Pedro I encarregou das obras do Paço Imperial ao arquiteto português Manoel da Costa (1822-1826), posteriormente substituído pelo francês Pedro José Pézerát (1826-1831), creditado como autor do projeto em estilo neoclássico do edifício.

O Paço que tinha apenas um torreão no lado norte da fachada principal, ganhou outro simétrico, no lado sul e um terceiro pavimento começou a ser erguido sobre os dois já existentes. As obras foram continuadas a partir de 1847 pelo arquiteto brasileiro Manoel Araújo de Porto-Alegre, que harmonizou as fachadas do edifício, seguido pelo alemão Theodore Marx (1857-1868). Entre 1868 e 1861 o pintor italiano Mario Bragaldi decorou vários aposentos.

Em 1869 houve um grande embelezamento dos jardins, com o projeto do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, e muitas das características ainda permanecem como a alameda das sapucaias, um lago onde é possível andar de pedalinho e outro onde se encontra uma gruta artificial onde se pode alugar canoas a remo.

Já no período da República, o local passou a abrigar o Museu Nacional, que até 1892 ficava no Campo de Santana.

Estive na Quinta da Boa Vista algumas vezes, confesso que mais no parque do que propriamente no museu. Quando estive no museu nacional (há pouco mais de uma década) via alguns sinais de abandono.

Particularmente gosto muito de museus e centros culturais; propriamente tinha mais o hábito de ir ao Centro Cultural Banco do Brasil, porém uma das coisas que gosto nas cidades é ver a sua história através dos prédios; saber que por aqueles lugares onde passamos aconteceu a história das pessoas que representam conquistas que hoje desfrutamos.

Fazendo o “mea culpa”, lamento não ter visitado mais o museu nacional mais vezes. Tenho a sensação que as pessoas visitavam mais os jardins da Quinta do que o palácio propriamente – talvez pelo fato de encontrarem ali as exposições físicas? Talvez pelo fato de o prédio apresentar um tom sombrio de abandono? Ou mesmo por morarem ali e simplesmente pensarem no tom “qualquer hora eu vou”. Assim vamos empurrando com a barriga.

Não sei quão valioso seja o patrimônio para as pessoas de modo geral. Eu tenho um grande apreço, e acredito que muitos dos arquitetos também – algo tão inerente à profissão, porém nem pra todos.

Certa vez em sala de aula um professor fala ante a turma sobre encontrar um monte de ossos durante escavações para obra e então o mandar concretar para não atrapalhar a obra. Então você imagina que o patrimônio para muitos não passa de uma “velharia” que só serve para atravancar o progresso.

Também na faculdade durante uma aula de Patrimônio I, um colega pergunta o que acontece com uma edificação quando quem é responsável não tem dinheiro para investir na sua preservação. “Tudo bem” o professor não ter a resposta, mas ele se exaltou com a pergunta – que não condizia com alunos do 7º período. O amigo que perguntou na verdade estava querendo saber se a pessoa pode receber recursos públicos, se pode haver interventores, se há políticas que desoneram custos como o IPTU para que ele possa fazer devidas reformas, enfim.

Só quis nestes casos tipificar que quem mais deveria defender e ter domínio de causa nesse assunto no mínimo é negligente.

Ver o prédio que já abrigou a família real portuguesa, a família imperial brasileira e que foi sede da primeira constituinte da república acabar em cinzas é muito triste, parece como alguém que vai envelhecendo e não tem suporte, você vê definhando e fica na expectativa de melhoras, mas sabe que o rumo é a morte. Uma construção que não recebe suporte tende a ter infiltrações, rachaduras, desprendimento de reboco, cupim, e tantas outras “enfermidades”.

 Também embarga a garganta ver que deveríamos deter o zelo pelo patrimônio mundial. Peças raras egípcias, da Grécia, de Roma, a mais antiga ancestral as Américas – a Luzia, os esqueletos de dinossauros.

Após essa horrenda cena (e não por falta de aviso) aconteceu o que se esperava – o jogo de empurra-empurra para definir quem foi o culpado. O certo é que não há apenas um culpado – cada um tem sua parcela de culpa.

Por mais que um incêndio possa ocorrer em um edifício na mais perfeita condição, o que é inconcebível neste caso são as formas de combate. Uma sucessão de erros.

Vejamos o desenrolar dos próximos capítulos – na esperança que das cinzas possa brotar a esperança de novos dias para o que o homem tentou apagar.

 

 

Dimensão Arquitetura

Por Luis Paulo Guimarães

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