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Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

Dimensão Arquitetura Por Luis Paulo Guimarães

Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

A arquitetura do Medo (Parte 1)

Publicado em 06/11/2017 sem comentários Comente!

Evolução das nossas casas

Evolução das nossas casas

Olá todos! Como vão? Acharam esquisito esse título “arquitetura do medo”? Já tem um bocado de tempo que li algo no caderno Morar Bem no jornal O Globo, deve ter mais de dez anos isso. Parece um contrassenso a palavra arquitetura e a palavra medo na mesma frase.

Numa escalada crescente dos números da violência no país e especialmente na nossa região, não é incomum notar que a arquitetura das residências e edifícios comerciais adotem mecanismos para coibir roubos e outras cenas que esses roubos possam provocar.

Quem não se lembra do principal mecanismo de defesa nas décadas de 80, 90? Cacos de vidro pontiagudos nos muros, pregos voltados para cima, aquela planta chamada coroa de espinho ou coroa de Cristo parecem ter ficado para trás.

Tudo depende muito do quanto as pessoas podem investir em segurança, ou quanto são alvos potenciais/preferenciais de bandidos. Um consenso é que as casas e edifícios se tornaram “prisões”. A altura dos muros reflete na periferia e em lugares nobres, em grandes centros urbanos ou em cidades do interior o receio da violência. Assim, como grandes fortalezas, escondemos as fachadas das nossas construções em muros que são fortalezas de defesa, bem, assim pensamos.

O Rappa já cantava em 1999 – “as grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você que está nessa prisão”.

A violência afeta a arquitetura, o modo de viver nas cidades. Pessoas abastadas (ou seja, em tese o alvo em potencial) buscam condomínios de edifícios, lá tem guarita 24h, câmeras de segurança, cancelas e até fossos criam a barreira de segurança. Cada vez mais as pessoas saem dessas ilhas, os condomínios oferecem academias, spas, cinema, brinquedotecas e uma variedade de serviços e comodidades que isolam cada vez mais os moradores das áreas nobres, das áreas, digamos de “não asfalto”.

Aos que moram em condomínios de casa, às vezes se tem a sensação de liberdade; em muitos deles se dispensa ou se tem como regra não usar muros na frente das casas, como um “American way of life”, diferente dos colegas do norte, as fronteiras de muitos loteamentos ditos condomínios estariam infringindo o art. 22 da Lei nº 6.766/79 que diz a partir do registro do loteamento no cartório de registro de imóveis, passam a integrar o domínio do Município as vias e praças, os espaços, livres e as áreas destinadas a edifícios públicos e outros equipamentos urbanos, constantes do projeto e do memorial descritivo.

Não entrando no mérito se está certo ou errado (também há vertentes que se baseiam em outros artigos que defendem a legalidade de loteamentos que constituem condomínios fechados), mas é certo que as cidades se tornam mais fragmentadas. O direito de muitos circularem fica cerceado. Uma linha de ônibus que poderia fazer um trajeto, hoje faz outro duas vezes maior, por exemplo por que não cruza o “condomínio fechado”.

Esse aspecto de condomínio fechado, algumas vezes é replicado em ruas e ruas pelas cidades. Estas ganham cancelas, portões, vigilantes particulares, coisas nem sempre permitidas, e algumas vezes, até abusivas.

Infelizmente o medo tem imperado e criado essa segregação. A política do salve-se quem puder.

Na periferia as pessoas acabam sendo vítimas por dois lados. A batalha começa na hora da pessoa conseguir uma vaga de emprego. O empregador as vezes torce o nariz para onde as vezes a pessoa mora, talvez não por que pense que será roubado, mas muitas vezes por se ver com um funcionário que as vezes irá faltar por se ver ilhado por tiroteios. O outro aspecto que vitimiza aqueles que estão nas periferias também é estar na linha de front, no fogo cruzado, seja de traficantes contra traficantes, ou de traficantes contra a polícia; o certo é que a segurança não é a mesma de quem pode pagar por ela, e as estatísticas de balas perdidas, mortes não enganam.

Certamente uma ação isolada e outra não é capaz de conter a escalada de violência, mas, entre as ações que podem ser tomadas, algumas ações da arquitetura podem sim contribuir para uma cidade mais igualitária e coibir a violência.

Recentemente escrevi aqui sobre calçadas, e um trecho do livro que li do arquiteto Jan Gehl, que abordava o assunto em um dos capítulos também lembrava em outro capítulo que as pessoas circulam ao se sentirem seguras. Locais com lojas com portas metálicas que se fecham no final de um expediente torna os lugares mais vulneráveis ao passo que grandes janelas, panos envidraçados dá a sensação de segurança, e cria de fato condições de segurança que pode fazer um bandido pensar duas vezes antes de cometer algum delito. Uma janela que traz iluminação aos espaços circundantes, uma vitrine iluminada, faz as pessoas se sentirem mais seguras para caminhar por locais que poderiam ser considerados ermos, e o aumento da circulação de pessoas faz aumentar também a sensação de segurança.

Nos idos dos anos 90 o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani encontrou uma cidade que tinha uma taxa de homicídios de 26 para cada 1000 habitantes, e isso foi reduzido em 65% e hoje alcança 90% de redução. A política da tolerância zero trazia não só medidas policiais, mas medidas que coibiam e puniam inclusive o lixo jogado no chão da cidade. No aspecto daquilo que poderia ser cobrado, em contrapartida muita coisa era consertada, os bairros degradados ganhavam iluminação, os lixos foram retirados dos becos. Talvez nesse aspecto as pessoas passem a participar mais da cidade a mesma medida que a cidade a convida à participação.

Não apenas nos Estados Unidos, mas um aspecto já observado, especialmente por causa dos filmes americanos é que as casas não têm muros. Como seria isso possível no Brasil? Especialistas em segurança, antes de tudo não recomendam que você tenha uma casa toda envolta de muros altos, na verdade isso acaba por ser uma armadilha, já que você pode ser assaltado e nenhuma movimentação suspeita ser percebida. Jane Jacobs, escreveu um livro chamado Morte e Vida de Grandes Cidades (1961), de grande valia para o mundo do urbanismo, a abordagem de Jacobs procurava mostrar o quotidiano das grandes cidades americanas e as razões da violência, da sujeira e do abandono. A autora defendia menos barreiras visuais, menos barreiras entre as pessoas; assim, eu “cuido do jardim do vizinho” e “ele cuida do meu jardim”, essas redes criam confiança, reduzem barreiras e se diminui a violência; Jacobs escreveu “Manter a segurança da cidade é tarefa principal das ruas e das calçadas”.

Com o 115º Policial Militar morto apenas este ano no Rio de Janeiro, com vidas ceifadas dentro do ventre materno, e com a paz de cidades pacatas sendo histórias de tempos atrás, ainda não nos demos conta seguimos o mesmo roteiro para tentar frear a violência, não nos dando conta que coisas vistas como banais na verdade podem ser a chave para conter esse abismo e devolver a cidade para as pessoas.

Espero vocês na próxima publicação! Vou trazer outros aspectos da arquitetura e da violência, mas agora ligadas ao urbanismo. Até breve.

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