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Panorama - Por Regina Oliveira

Panorama Por Regina Oliveira

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O melhor amigo do homem

Publicado em 15/08/2017 sem comentários Comente!

 

 

De todos os animais que conhecemos o cachorro é o que mais se uniu a nós seres humanos. Sejam príncipes que lhe dão farta comida e leito de plumas, ou mendigos que dormem ao relento e só podem oferecer-lhe uma pequena parte das suas próprias migalhas: idêntica é sua afeição e dedicação, e com igual amor lambe a mão ornada de jóias e os dedos trêmulos, consumidos de doença e fome.
Animais de natureza social, eles são capazes de manter uma comunicação muito afetiva com seus donos. Para além da fidelidade e de outros atributos que costumam ser associados aos cachorros, é ai que reside o diferencial dessa afeição: ela dispensa palavras. É uma relação muito básica. Não há complicações, discussões ou melindres. A chave da amizade entre homens e cães é que se trata de uma ligação puramente emocional. O cão tem uma competência ímpar para comunicar seus desejos - comida, água, carinho, necessidades de um passeio. Também é capaz de ler as emoções de seus donos e responder apropriadamente a elas, num fenômeno que os especialistas chamam de ressonância afetiva.
O cachorro passou por um processo de domesticação intenso. Podemos dizer que o cão que conhecemos hoje é uma obra humana. Sabe-se que a domesticação iniciou-se há mais de 100.000 anos, quando os ancestrais do homem começaram a dar abrigo aos filhotes de lobos que rondavam seus acampamentos. A relação, a princípio, era de caráter utilitário: o cão ajudava na caça e na proteção, em troca de comida. Presume-se que aqueles animais que se adaptaram melhor ao convívio humano ganharam o que os biólogos chama de vantagem adaptativa: tinham mais chance de sobreviver e gerar descendência que os demais. Num processo que o naturalista Darwin chamava de "seleção artificial", o homem foi criando cães cada vez mais apropriados a suas necessidades. Pelo mesmo processo, foi se desenhando a incrível variedade de raças caninas.
Os laços afetivos entre as espécies também foram depurados ao longo da evolução. A comunicação foi facilitada, de saída, pelas semelhanças entre a estrutura social do homem e dos caninos. Tal e qual ocorre nas sociedades humanas, a matilha é um grupo regido pela hierarquia e no interior do qual os indivíduos têm de saber decodificar as emoções de seus pares. Assim como o homem, o cão tem necessidade de se ligar a outro ser e adotá-lo como referência. É razoável supor que, sempre que uma nova cria surgia, os homens davam preferência não só aos animais que atendiam suas necessidades práticas, mas também àqueles que tinham traços comportamentais que facilitavam a compreensão mútua. E assim se refinou a capacidade de ambas as espécies de interpretar o humor e reações do outro.
Estudos recentes ajudam a entender a natureza dessa ligação. Boa parte deles toma como ponto de partida a comparação entre o comportamento do cão e o do lobo, seu parente selvagem. As duas espécies são muito semelhantes geneticamente - a ponto de a reprodução entre elas ser factível. Mas a um abismo comportamental e tanto: o cão hoje dificilmente sobreviveria nas florestas onde os lobos caçam. Seu meio ambiente é o homem. Mesmo os cães de rua não vivem sem alguma forma de interação com o ser humano. Diferente do lobo, o cachorro desenvolveu uma capacidade de interação com o ser humano muito apurada. Mas ele também sabe que seu dono não é outro cachorro.
Para os humanos, o convívio com os cães gera benefícios hoje mais comprovados à saúde e a mente. Nos últimos anos os cientistas trouxeram à tona fartas evidências disso. Já se mostrou que as crianças que interagem com eles desenvolvem a coordenação motora e as habilidades socioemocionais mais rapidamente. Os idosos também tiram proveito desse relacionamento. Uma pesquisa americana revelou que, para as pessoas entre 65 e 78 anos, a companhia de um cão contribui decisivamente para evitar depressão e o isolamento. E, por fim, essa amizade pode ser útil para doentes, como podemos verificar em pessoas com hipertensão que tem cães geralmente sofrem menos crises em situações de stress.
A cooperação entre cachorros e homens alimentou uma quase santificação do animal. São conhecidas histórias de cachorros que salvaram a vida de seus donos, ou até morreram ao fazê-lo. A imagem do cão que se sacrifica por seu dono é comovente - mas esse comportamento tem uma explicação menos idealizada. Do ponto de vista da biologia, não existe sacrifício. O que parece um comportamento altruísta por parte de um cachorro quase sempre é apenas resultado de seu comportamento de matilha. Assim, se um cão salva um menino do incêndio, é porque em situações de stress ou perigo o animal tenderia a manter seu grupo todo reunido. E é claro que ele não tem uma noção exata do perigo que corre ao entrar numa casa em chamas. Isso pode valer para a perspectiva mais objetiva da ciência. Para o dono de cachorro, que tende a avaliar o que vê em seus próprios termos subjetivos, é muito difícil não se impressionar com a lealdade do cachorro.
Ao longo do tempo, as virtude e os defeitos caninos ganharam inúmeras representações culturais. Além da fidelidade, o cão tornou-se símbolo de heroísmo e afetividade - mas também gaiatice e agressividade. As pessoas tendem a ver seu bicho de forma humanizada e considerá-lo como um filho, um amigo. No fundo o animal responde à necessidade atávica que todo ser humano tem de cuidar de outro ser vivo. De certo modo, ele funciona como uma criança substituta, especialmente para os donos mais velhos. Não é de estranhar que muitos se intitulem "papai" ou "mamãe" de seu bicho. Nas metrópoles modernas, em que as pessoas tendem a ter menos rebentos, ele preenche uma lacuna afetiva importante. Mesmo adulto, requer cuidados não muito diferente que se dispensam a uma criança, pois é necessário lhe dar comida, banho e abrigo. Em troca, estará sempre à disposição para brincadeiras e afagos. O cão é um animal gregário, o que marca uma diferença e tanto em relação ao gato, um bicho mais individualista.

Para o cachorro o tempo parou. O que vale para ele é ainda o coração, e sua devoção provém de uma época romântica. Sua alma, incólume ao século nervoso das bombas atômicas e das viagens interplanetárias, não conhece nem malícia nem falsidade; com a mesma alegria natural ele nos acompanha na chuva torrencial e no forte calor: sempre o amigo mais fiel do homem.

Mas esta sua entrega completa ao homem e o nosso domínio absoluto sobre um ser que não tem alternativa de optar por um ou outro dono impõem-nos, além da obrigação de dar-lhe comida e teto, o dever de tentar compreendê-lo de descobrir seu gênio, enfim, de amar este amigo que adquirimos para acompanhar-nos na nossa existência. A inteligência do cão, o seu caráter, o seu poder de observação e a sua capacidade de agir com uma aparente compreensão íntima não devem, no entanto, iludir-nos. Ele continua a ser um animal que o Criador criou. Se ele o dotou de grande devoção, da boa vontade de subordinar-se e da tendência a obedecer a um espírito forte, então cabe a nós coordenar estes dons e fazê-los úteis.(DA)

 

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