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Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

Dimensão Arquitetura Por Luis Paulo Guimarães

Dimensão Arquitetura - Por Luis Paulo Guimarães

Um abrigo pode ser afago neste frio - A arquitetura e as pessoas em situação de rua

Publicado em 11/06/2017 sem comentários Comente!

Abrigo criado por alunos da disciplina de estudos ambientes - 2º período de arquitetura e urbanismo - Isecensa- Campos dos Goytacazes. Prof. Alber Neto

Abrigo criado por alunos da disciplina de estudos ambientes - 2º período de arquitetura e urbanismo - Isecensa- Campos dos Goytacazes. Prof. Alber Neto

 

 

Olá nobres leitores! Como vão? Curtindo esse friozinho? Não sei precisamente em que região você vive, porém, em diversas partes do nosso país o frio tem se feito presente e ainda estamos há dez dias do início do inverno.

Muitos curtem a nova estação, acham que se anda melhor vestido, mais elegantemente, aproveitam para fazer viagens a serra, época de sopas, chocolate quente, fondue e outras tantas gordices.

O lado nada charmoso do frio é sentido principalmente para as pessoas em condição de rua. Quando não há abrigos para estar, como os que são oferecidos por prefeituras de algumas cidades, estar ao relento é a condição de diversas pessoas. Muitas, no intuito (entre outras coisas) de se aquecer fazem uso do álcool – o que na verdade as deixa mais vulneráveis. Por fim, outras tantas morrem de hipotermia devido às baixas temperaturas.

Não vou entrar no mérito da situação que levou essas pessoas às ruas, as situações são as mais diversas. Brigas familiares, desemprego, drogadição, enfim, muitas vertentes para apontar, tal como também são as vertentes que podem, se não sanar, amenizar esse sofrimento.

Não existem moradores de rua, senão, pessoas em situação de rua. Diversas pessoas em situação de rua usam como proteção caixas de papelão aberta, assim não deitam diretamente no chão frio e úmido.

Vocês já ouviram falar em arquitetura efêmera? Essa forma de arquitetura está ligada a projetos de construções temporárias. Construções que usam materiais, geralmente alternativos que permitem a fácil relocação ou desmobilização.

Há exponentes arquitetos que usam materiais que para muitas pessoas é lixo ou de qualidade inferior. Um grande nome conhecido no universo da arquitetura e do urbanismo é o arquiteto japonês Shigeru Ban, o laureado arquiteto é conhecido por seus trabalhos utilizando o papelão como matéria prima dos edifícios. Falar de Shigeru Ban não é apenas falar em suas obras efêmeras, senão também falar de grandes edifícios como igrejas ou pavilhões feitos em tubos de papelão e que, a pesar do material que se está utilizando ser o papelão, este é tratado de forma que não seja tão efêmero assim.

De alguma forma, não poderia deixar de citar este arquiteto, que participou de projetos humanitários, como as casas Paper Log, construídas em Kobe, no Japão, em 1995, devido ao terremoto de deixou, além de milhares de mortos, outras tantas famílias desabrigadas. Ban adotou casas cujas paredes foram feitas de tubos de papel de 4mm de espessura e 106mm de diâmetro. A fundação das casas foi feita sobre caixas de cerveja preenchidas com areia. O custo das unidades de 52 metros quadrados foi estimado em menos de dois mil dólares.

Em 1999 o arquiteto japonês também esteve envolvido com o desenvolvimento de abrigos temporários para pessoas que ficam sem casas em Ruanda, devido a guerra civil. A demanda é que os abrigos entre outra tivessem baixo custo e tivesse resistência ao ataque de cupins. Ademais destes projetos, Ban também esteve à frente na ajuda do abrigo em outros eventos catastróficos.

Mas, o que poderia ter a ver o arquiteto japonês com a realidade de milhares de pessoas em situação de rua? Justamente o uso do papelão; neste caso, não apenas.

Vivemos em uma sociedade onde as pessoas que estão nas ruas são por muitos tratados como ameaça, como um desconforto e desconfiança.

Diversos comerciantes usam uma “estratégia belicosa” para afugentar o uso de suas portas ou marquises por essas pessoas. Alguns usam da estratégia de ligar fortes holofotes para impossibilitar que a luz os faça dormir, outros, simplesmente removem marquises, outros tantos usam objetos pontiagudos para impedir que as pessoas possam se deitar.

Obviamente, não podemos apenas satanizar o comportamento dos comerciantes, empresários, certamente na visão deles, a sujeira que talvez tantos deixem, pode incomodar aos seus clientes.

Não obstante esse tema possa ter várias visões, como arquitetos e urbanistas, não podemos limitar nossa visão aos problemas que podem ser causados. Problema maior é ver as pessoas se degradando fisicamente e mentalmente por estar “morando” nas ruas e não fazer nada. Conforme vimos, materiais que são jogados no lixo, podem ao menos se tornar abrigo, e isso pode salvar vidas.

Certamente há pessoas que se incomodam com o assunto e o argumento dessas pessoas é dizer que se está pensando pequeno, que isso não resolve o problema. Primeiramente eu gostaria de perguntar a essas pessoas: você é uma pessoa em situação de rua? Se a resposta foi não, eu te convido a fazer um exercício de imaginar como seria estar na rua. Acho que talvez aí você notasse que alguma forma de abrigo é melhor do que nenhuma. A segunda pergunta que faria é: o que você está fazendo para ajudar nessa situação: Se a resposta é que não está fazendo nada, então eu acho que a crítica não tem fundamento e ainda convidaria a você conhecer projetos que você pode ser engajar e transformar de alguma forma o mundo ao seu redor.

Há diversos projetos que são tirados do papel e feito por mãos voluntárias. Alguns conhecidos e outros nem tanto. Um dos projetos mais divulgados no Brasil é do grupo Teto. Nascido no Chile como Techo, o grupo está espalhado por diversos países e visa com a cooperação de variados voluntários construir moradias para pessoas que vivem em forma precária. Se você não puder ajudar com a mão de obra, pode ajudar financeiramente.

 A rigor, ninguém tem a pretensão de resolver o problema com meios efêmeros e paliativos, mas, se a mão de Estado não alcança e afaga a este público, alguém mais próximo pode trazer um alívio.

Estritamente seguindo o juramento firmado quando graduados em arquitetura e urbanismo, contamos com a baliza de professores que, apresentando o problema debatem e propõem aos então estudantes alternativas para que além da teoria, possam ver na prática e dar abrigo a todos.

Um exemplo próximo realizado em Campos dos Goytacazes, pelo professor do Isecensa (Institutos Superiores de Ensino do Censa), Alber Neto, estimula essa visão em seus alunos. Na disciplina de estudos ambientais os alunos podem fazer modelos que são baratos, fáceis de serem feitos e itinerantes, por assim dizer. Talvez o mais importante dessa disciplina não seja sequer o resultado final alcançado, senão, certamente a forma que leva os alunos a criarem estes abrigos, que passa pelo entendimento da plástica, pela resistência e desempenho dos materiais utilizados, pela economia, enfim, uma visão que poderá, quiçá, trazer à tona futuros Shigeru Ban.

Certamente, o empenho é para que as pessoas tenham acesso a moradias dignas, não provisórias, mas, enquanto o médico não chega, seguimos tomando aspirina para dor de cabeça. Que neste inverno você aqueça seu coração e ajude a aquecer os demais.

 

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