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Panorama - Por Regina Oliveira

Panorama Por Regina Oliveira

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Meu lado mulher

Publicado em 14/02/2014 sem comentários Comente!

Meu lado mulher

se incomoda em receber mensagens
apenas um dia por ano (8 de março),

enquanto que meu

lado homem se enche com 364 dias.

Talvez seja necessária esta efeméride,

dor recente de uma antiga cicatriz.

Porque se vive numa sociedade machista:

 matrimônio, o cuidado do lar; patrimônio,

o domínio sobre os bens.

O marido possui o carro, a casa e a mulher,

que inclusive, em alguns países,

incorpora o sobrenome da família dele.

Ele exige que limpe a casa todo dia.

Manda o carro para a oficina ao menor defeito.

À mulher, ser multifacetado,

cabe o dever de cuidar da casa,

dos filhos,

das compras e do bom humor do marido,

que nem sempre se lembra de cuidar dela.

 

Meu lado mulher nunca viu o marido

gritar com o carro,

ameaçá-lo ou agredi-lo.

Enquanto nem ela é sempre tratada

com tanto respeito.

Na Igreja Católica os homens têm acesso

aos sete sacramentos.

Podem até ser ordenados sacerdotes e,

mais adiante,

obter dispensa do ministério e

contrair matrimônio.
As mulheres,

consideradas pela teologia

vaticana um ser naturalmente inferior,

só têm acesso a seis sacramentos.

Não podem receber a ordenação sacerdotal,

mesmo tendo merecido

de Jesus o útero que o engendrou;

o seguimento de Joana,

de Susana e da mãe dos filhos de Zebedeu;

a defesa da mulher adúltera;

o perdão da samaritana;

a amizade de Madalena,

primeira testemunha da sua ressurreição.

 

Meu lado mulher

tem pavor da violência doméstica;

do pai que assedia a filha,

enviando-a a perdição da prostituição;

do patrão que exige favores sexuais de sua funcionária;

do marido que levanta a mão para profanar

o ser que deu a luz a seus filhos.
Diante do televisor ou de um molho de revistas

meu lado mulher se estremece:

Cala a boca, Magda! Ela é burra,

a imbecil que move as cadeiras no fundo do cenário,

se mete na banheira do Gugu,

se expõe na casa do brother,

se associa à publicidade de cervejas e carros,

como um adereço a mais de consumo.

 

Meu lado mulher trata de resistir

diante do implacável jogo da

desconstrução do feminino:

tortura do corpo em academias de ginástica,

anorexia para manter-se esbelta,

vergonha das gorduras,

das rugas e da velhice,

entrega ao bisturi para que amolde a carne

ao gosto da clientela da carnificina virtual,

o silicone para ressaltar protuberâncias.

E manter a boca fechada,

até que haja no mercado um chip transmissor

automático de cultura e inteligência que

se possa enxertar no cérebro.

E engolir antidepressivos para tratar

de encobrir o buraco no espírito,

vazio de sentido, ideais e utopia.

 

Meu lado mulher

se esforça por se livrar do modelo

emancipatório que adota,

como paradigma, meu lado homem.

Será que ela tenta não querer ser como ele?

Navega em mares nunca dantes navegados,

rumo ao continente feminino,

onde as relações de gênero serão de alteridade,

porque o diferente não se fará divergente.

Aquilo que é só terá plenitude em

interação com seu contrário.

Como acontece em todo verdadeiro amor.

 

TEXTO: Frei Betto
Fonte: ADITAL - 06 de março de 2002

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