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Panorama - Por Regina Oliveira

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Madame Charlotte

Publicado em 24/01/2017 sem comentários Comente!

Niterói, 9 de dezembro de 2011
Regina
Perdoe-nos a demora.
Você disse de sua curiosidade a respeito da Madame Charlotte.
Casou-se com Antonio Garcia Maldonado, argentino, cujos filhos Andrée , Sergio e Leila, agora lhe escrevem.
Nascida no Brasil em 1910, com poucas semanas foi levada à França, onde foi criada pela avó num ambiente rural, na região administrativa Auvergne, no centro do país.
Aos 12 anos retornou ao Brasil, Rio de Janeiro, onde estavam seus pais Antonie Doret e Adelaide Doret, e suas irmãs Leontine e Marie, que haviam imigrado nos primeiros anos do século passado.
Por ocasião da Primeira Guerra Mundial - 1914/1918, nosso avô Antoine Doret deixando a família no Brasil, foi para a França “fazer” a guerra, retornando ao final da mesma.
O Antoine dedicou-se à fabricação de perfumes e era também “coiffeur de dames” – cabelereiro. O Salão A. Doret, na Cinelândia, ficava no primeiro andar do Bar Amarelinho, que já existia à época.
A Charlotte era steno-datilógrafa francês/português, trabalhou em empresas de exportação e no Banco Francês Brasileiro.
De quando em vez íamos passar temporadas em hotéis fazenda, como o Salvaterra , próximo de Juiz de Fora, MG. Era uma manifestação do interesse dela pela vida no campo.
Daí, em 1940, descobriu o Arraial do Frade, Macaé, RJ onde comprou um sítio e batisou-o de Chalet, que passou a ser nosso destino obrigatório nas férias escolares. A casa era pernalta, com os barrotes apoiados em bases de pedra, emoldurada por um jardim com muitas espécies de flores e ervas aromáticas.
Tinha casa de farinha e moinho de fubá operantes, tocados a água, galinhas, porcos, cavalos, cães e gatos, horta, pomar, bananal e um brejo tomado de açucenas de flores perfumadas.
Nas ausências prolongadas, o elo de ligação com o Frade foi Mirote Castro e sua família, esposa D. Joaquina, sogra D. Fantina, filhos Joamyr, Joahyr, Jaline, Jaci e mais tarde, Jarbas e Jussara .
O sítio ficava entregue a um empregado, que também o explorava na base da terça e o Mirote estava sempre atento para as situações que requeressem decisões e atitudes.
Daí nasceu uma ligação de amizade entre as famílias, que levou em 1950 Mirote tornar-se padrinho de batismo de Leila, a caçula.
Por volta de 1942 nossos avós se mudaram do Rio para o Frade, período em que o sítio recebeu mais atenção e cuidado.
Em frente da casa, distante uns 5 km, via-se a Pedra do Elefante como nós a conhecíamos, que nosso avô chamava de Chapeau de Napoleon (Chapéu de Napoleão), pois era como ele o via.
Do Rio, a famíla enviava pelo correio jornais e revistas, que eram entregues pelo estafeta, Procópio. Ele se deslocava entre Glicério e Sana fazendo a distribuição. Sem desapear, manobrava sua bela mula, tirava do embornal a correspondência, esticava o braço e a entregava a quem estivesse na varanda. Será que os Correios ainda fazem isto? Era tempo da 2ª Guerra Mundial.
A avó (memê em francês) Adelaide era cega por glaucoma, mas tinha uma bela mesa de costura, com agulhas especiais para cegos e um monte de quinquilharias cujas posições ela conhecia de cor, e ficava muito zangada quando Sergio mexia em suas coisas e não as punha no devido lugar. Guiada por Sergio, gostava de ir a horta para colher folhas e legumes, que avaliava pelo tato. Ela se deslocava sozinha somente em casa e de vez em quando resmungava algo em francês com a palavra chemin (caminho), quando sua bengala encontrava um dos cães deitados.
O avô, (pepê em francês) Antoine, de barba e cavanhaque brancos, invariavelmente, estava vestido de camisa com mangas longas, calças compridas, botas ou uma espécie de perneira (que era uma longa faixa de pano trançada na perna, como usavam os soldados franceses na 1ª Guerra Mundial) em suas andanças pelo sítio ou quando montava Diana, a égua marchadeira.
Em 1939, a Comissão Central de Macabú, contratou serviços e equipamentos japoneses para a construção da Usina de Macabu. Com a eclosão da guerra em 1941 o contrato foi cancelado, o pessoal técnico regressou ao Japão, mas alguns ficaram e seus descendentes continuam até hoje no ramo da engenharia, em Niteroi.
À época, o canteiro de obras da CCM na Tapera era, guardadas as devidas proporções, coisa de primeiro mundo, com hotel e hospital. Neste hospital, Adelaide foi internada, operada, veio a falecer em 1943, tendo sido enterrada no cemitério do Frade. O velho Doret, durante os dois anos que ainda passou no sítio, semanalmente montava a Diana e ia levar flores colhidas no jardim e deixa-las na sepultura. Mudou-se para o Rio e faleceu em 1947. Seus despojos foram transladados para o Frade em 1952.
As idas para o sítio eram precedidas de cuidadoso preparo, encaixotando alimentos não encontráveis no Frade, chocolate amargo em barra da Kopenhagen (cujo consumo era rigorosamente controlado para cobrir todo período de estadia) e outras guloseimas. Os caixotes eram despachados para Glicério, pela Agência Pestana. De lá era contratado o transporte para o sítio pela tropa do Apolônio .
Viajar para o sítio era um evento memoravel. De madrugada, por volta das 2:00 h tomávamos um taxi com destino à estação da Leopoldina Railway, de onde saía o trem para Macaé. No saguão da estação, o cheiro da fumaça e o barulho das locomotivas, os empregados uniformizados, a azáfama de passageiros e carregadores, criavam um ambiente surreal para nós crianças. Ao assistir o primeiro filme de Harry Potter, o embarque no Expresso de Hogwarts, Sergio lembrou-se daquelas oportunidades, então esquecidas.
Em Macaé almoçávamos e embarcávamos às 14h00min para Glicério, aonde chegávamos ao entardecer. Dormíamos no Hotel Correia e pela manhã do dia seguinte os cavalos nos esperavam para ida ao sítio, não mais do que 9 km, mas galgando 330 m. Era uma eternidade.
Embora passássemos meses distantes, os cães nos reconheciam e faziam festa.
Na temporada eram feitos os consertos e reparos de maior monta nas casas, manutenção do moinho de fubá e casa de farinha pelo carpinteiro Moisés, que também era o guia nas incursões pela mata no alto da serra. 
Era um passeio puxado até o topo 400 m mais alto do que a casa, em que a Charlotte parava muitas vezes arfando, descansava e tornava a subir até que chegássemos ao topo, onde consumíamos o conteúdo do embornal do farnel.
A cada momento o Moisés identificava uma planta de interesse especial. À época, o palmito juçara era abundante e ele trazia um feixe tão grande quanto pudesse carregar. No caminho havia também a Grota do Chuchu, assim chamada pela abundância deste em estado nativo.
A visita à vizinhos era uma prática corrente naqueles tempos e a Charlotte fazia o mesmo, até como mais uma oportunidade de andarmos a cavalo (Charlotte usava culote e botas de cano longo), além das idas ao Frade para compras no armazém do Antônio Abreu e do Gumercindo, que era um sobrado, ou na padaria do Adelino. Por vezes, passeios mais longos, como Sana e Tapera, e muitas vezes voltando debaixo de chuva, satisfeitos da vida. Nestas ocasiões, para aquecer-nos internamente, era-nos permitido beber um meio cálice de Kümmel, um licor transparente, muito doce e forte ou ainda, ou chupar um tablete de açucar previamente molhado com cachaça. Isto depois de desarrear os animal e leva-los a um dos pastos.
Num ano qualquer do século 19, o naturalista francês Saint-Hilaire cunhou no livro Viagem à Província de São Paulo a frase que se tornaria famosa e causaria espécie no governo Vargas: 
“Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.
No pomar, cada pequena árvore era cercada por um fosso circular construído em cimento, que era mantido com agua para evitar o ataque da saúva. A Charlotte frequentemente vistoriava e ficava impressionada com as soluções engenhosas de que as formigas se valiam para atravessa-lo, como uma ponte formada por formigas que se prendiam umas às outras. Assim, o combate às saúvas era uma atividade frequente, em que se usava um grande fole, na ponta do qual havia uma recipiente de ferro onde se colocavam brasas, algum tipo de veneno em pó, que gerava densa fumaça. Ficávamos atentos para o surgimento dela nos olheiros, que eram tapado com sabugos de milho.
Pela sua origem rural e europeia, gostava de cozinhar e também armazenar (para o inverno) o que houvesse sido feito. Quando se matava porco, o dia inteiro ficava por conta da preparação do boudin noir (morcela), da andouillete (embutidos de miúdos, pâté de campagne, o confit (a carne temperada frita e conservada na gordura) usando a alfavaca, o simplicinho, a hortelã pimenta da horta...
À noite, tomávamos um chá de erva cidreira ou capim limão, comíamos bolo assado no borralho do fogão e líamos a luz de velas até que o sono chegasse. 
 Charlotte gostava também de cantar e por vezes fazíamos um sarau, acompanhando as canções de velhos discos 78 RPM, executados por uma vitrola portátil, que exigia que se lhe desse corda entre cada disco executado e a troca frequente de agulhas.
Na frente da casa, há uns 100 metros e do outro lado da estrada que vinha do Frade, estava o rio São Pedro, com boa vazão até no período mais seco, onde podíamos tomar banho de cachoeira e, literalmente, mergulhar de uma laje de pedra de onde ficávamos apreciando a mata ciliar que o protegia. Nas épocas de menor vazão, caminhávamos rio abaixo ou rio acima, descobrindo novas paisagens e locais para banho.
De vez em quando íamos ao Poço da Paca, há uns 700 metros indo na direção do Frade, do lado direito, um trecho menos encachoeirado, e bem mais largo do que o que estava em frente do Chalet, onde era possível de braçadas e onde pescávamos com uma peneira, passando-a junto da vegetação das margens.
Estamos falando de situações que ocorreram há uns 60 anos. Se hoje alguém procurar identificar os locais pela descrição dos dois parágrafos acima, não os encontrará. A mata ciliar foi removida e o rio São Pedro é um riacho. Basta entrar no Google Earth, localizar o Sítio Chalet com as coordenadas 22º 15’ 15.95” S e 42º 07’ 05.89 W e constatar. Como será daqui a mais 60 anos?
Já que tratamos de degradação ambiental, a foto 27 mostra a chegada ao Frade vindo do Chalet, em 1950. Nela se nota ao fundo, a igrejinha impávida sobre o pequeno morro. Era o cartão de visitas do Arraial do Frade. Há alguns anos atrás fomos rever o sítio e ficamos chocados em ver um prédio disforme colado à igreja. Na ocasião enviei mensagem para a Secretaria de Turismo de Macaé, me referindo ao fato como indigência cultural ...
Com a passagem do tempo, já não íamos com a frequência anterior e raramente estávamos todos juntos, por força dos compromissos de estudo e profissionais.
Em 1960 o Chalet foi vendido para Mirote Castro, dele para Adelino e hoje é de propriedade de José Carvalheira.
Ao se aposentar em 1962, Charlotte mudou-se do Rio para Nova Friburgo, RJ.
Lia muito, pintava em porcelana, cerâmica, tela e por vezes experimentava a tapeçaria, até que a visão dificultasse. Submeteu-se a operação de catarata e voltou às atividades.
Em 1969 foi internada e seu estado era crítico, a ponto de termos ido visita-la como se fosse a última vez. Recuperou-se e embarcou no Frotavento, um navio cargueiro da Frota Oceânica, cujo comandante era seu sobrinho, numa viagem pelo mundo a fora de quase 3 meses.
Apesar da saúde, ela tinha grande Alegria de Viver...
Faleceu às 11:10 h de 14/06/75 e a neta Daniela, filha de Leila, nasceu exatamente nove meses depois, às 23:10 h de 14/03/76...
Enquanto puxava pela memória e buscava fotos, Sergio pesquisou e encontrou no Google, o endereço de Joamyr Castro (filho de Mirote e d.Joaquina), médico anestesista e cardiologista em Adamantina, SP.
Nos períodos de férias durante a infância e adolescência, foram companheiros no desempenho de tarefas que o velho Mirote atribuia a ele e seus irmãos.
Enviou-lhe as fotos e restabelecendo contato depois de meio século e recebeu email dando notícias:
“Meu Querido Amigo Sergio
que maravilha saber que estamos vivos e que nos veremos nos próximos dias. 
Também estou casado novamente com Suely porque Syrlene morreu ha 30 anos.
Joahyr mora aqui em Adamantina, Jaline em Macaé, Jaci em Barra de São João, Jussara em Macaé, e Jarbas em Ibaté, próximo a São Carlos SP.
Se você estiver em Niterói no próximo dia 07 de dezembro eu terei muito prazer em encontrar você e Lucia. Chegarei ao Rio pela manhã (avião), visitarei a prima Laís em (Niterói) que está doente e provavelmente estaremos livres a partir das 11:00 h. 
A tarde viajaremos (ônibus) para Macaé. No dia 09 de dezembro estaremos no Frade, na Escola Fantina Melo (minha Avó) entregando um premio denominado Joaquina Maria Castro ao melhor aluno do ano.”
Regina, a sua curiosidade sobre a Madame rendeu bons frutos.
Anexo, o ppt Sítio da Madame, com as fotos que conseguimos recuperar.

Niteroi, 10 de janeiro de 2012
Andrée, Leila e Sergio

 
 
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